Ana Freitas e o desafio de comunicar a mineração responsável

Minerando Histórias Femininas apresenta a jornalista Ana Rita Freitas, que revela como a comunicação estratégica ajuda a romper o preconceito no setor mineral. Para ela, comunicar é também uma maneira de contribuir com transformações de realidades.

A jornalista Ana Freitas atua na comunicação mineral há 22 anos / Foto: Acervo pessoal.

Ana Rita Campos Martins Freitas não planejou ser uma voz da mineração. Após dez anos atuando como jornalista na Bahia, ela decidiu que era hora de expandir horizontes em direção ao mundo corporativo. Sua porta de entrada foi a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), ligada à Vale, onde descobriu que a comunicação poderia ter uma visão estratégica e um DNA mineral, inspirada por lideranças femininas que marcaram sua formação profissional.

Continua depois da publicidade

A trajetória, no entanto, exigiu coragem e atitude: ela mudou-se de Salvador (BA) para São Luís (MA) com uma filha pequena, contando com o apoio essencial da família para dar o próximo passo na Estrada de Ferro Carajás (EFC). “O trem seguia me levando, cada vez mais, em direção às minas”, recorda.

Por mais de 10 anos, Ana comandou a Gerência de Comunicação da Vale em Carajás (Parauapebas/PA). Em um ambiente majoritariamente masculino, ela conquistou respeito profissional e viveu desafios importantes “Também tive o privilégio de conviver com mulheres que abriram caminhos e ampliaram espaços na mineração”, relata.

Encerrado seu ciclo na Vale, ela seguiu rumo a novas oportunidades. Há dois anos, Ana assumiu a gerência de Comunicação da Mineração Rio do Norte (MRN). “Voltei ao Pará e encontrei uma empresa que valoriza a diversidade, experiência e contribuição, sem vieses de etarismo, por exemplo. Hoje, sigo acreditando que comunicar é também transformar realidades, inclusive dentro da mineração”, enfatiza.

Assim, ela que nunca havia se imaginado no setor mineal, foi descobrindo todas as potencialidades de trabalhar com comunicação corporativa nesta área.

Os desafios da comunicação mineral

Na avaliação de Ana, a Comuniação tem muito campo de trabalho no setor mineral. Porém, os entraves e dificuldades também existem. O principal desafio apontado por ela é aproximar a mineração dos públicos através do esclarecimento de como a mineração responsável é realizada.

“Apesar dos avanços, ainda existe muito preconceito na sociedade. Temos um papel social importante de comunicar pautas positivas e informar com respeito e transparência questões críticas”, avalia.

Ana Freitas é graduada em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Já são 32 anos atuando na Comunicação, dos quais 22 foram exclusivamente na área da mineração. Neste período, vivenciou situações difíceis, mas também muito felizes. Ela destaca duas coberturas que lhe dão muito orgulho, não só pelo reconhecimento profissional, mas principalmente pela transformação social que eles trouxeram para as comunidades onde ocorreram.

O primeiro projeto foi o Centro Mulheres de Barro, inaugurado em 2016, na cidade de Paraupebas, que é administrado pela Cooperativa dos Artesãos da Região de Carajás, com o incentivo fiscal da Lei Rouanet e patrocínio Vale. O espaço é formado por uma galeria de exposição, uma loja, um ateliê e espaço educativo, que conta com o trabalho de mulheres ceramistas, instrutoras de arte e gestoras culturais.

A galeria do Centro expõe material museográfico com temática arqueológica, minerais e culturais da região de Carajás, a loja oferece artesanato cerâmico e o ateliê está equipado para produção de peças, nas quais são utilizados pigmentos minerais de ferro, cobre e manganês. O local faz parte da rota turística do município.

“Acompanhar a inauguração do Centro Mulheres de Barro, levar visitantes, mostrar aquele trabalho foi muito marcante para mim”, relembra Ana, ressaltando que a aproximação entre a mineração e a comunidade pode resultar em bons frutos.

Já o segundo projeto, realizado na Mineração Rio do Norte, é mais recente e rendeu uma dupla premiação, em âmbito regional e nacional. Trata-se do case “O Lago Batata Vive”, que retrata a recuperação ecológica de um dos mais importantes ecossistemas da Amazônia, localizado em Trombetas/Oriximiná (PA). O trabalho divulgou a revitalização do Lago Batata em diversas frentes de comunicação, como e-book, hotsite, websérie, entre outros materiais.

Segundo Ana, de forma transparente e humana, a comunidade foi informada sobre os resultados da restauração. “A gente conseguiu, a partir de uma estratégia de comunicação, sair de um ‘issue’, problema, para um ‘case’ de sucesso, ao esclarecer mitos e verdades sobre um impacto real provocado há mais de três décadas e seu processo de reparação”, relata.

A iniciativa foi reconhecida na premiação da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), que reune as iniciativas de comunicação mais relevantes do país. O case “O Lago Batata Vive” foi campeão na etapa regional Norte e Nordeste do Prêmio Aberje 2025 e na nacional.

Prêmio Aberje 2025 etapa nacional.

Prêmio Aberje 2025 etapa Norte e Nordeste.

Para Ana, o Lago Batata é um projeto que lhe deixou duplamente orgulhosa, pois obteve resultados positivos nas duas áreas que seu trabalho envolve: comunicação e mineração. “Além de ser um exemplo bem-sucedido de recuperação ecológica, podemos afirmar que ele se tornou também um sucesso de comunicação: conseguimos levar uma mensagem técnica e complexa para públicos variados, utilizando uma linguagem acessível e customizada. É a prova de que a transparência e a clareza são essenciais para conectar a mineração responsável com a sociedade”, destacou quando recebeu o prêmio.

Mulheres na mineração

Para Ana Freitas, a mineração não é mais difícil para as mulheres. A jornalista enxerga avanços e acredita que a mulher consegue atuar em qualquer área. Ademais, atualmente, as mineradoras estão ativamente buscando inseri-las em seus quadros.

O setor mineral ainda tem uma maioria masculina. Na visão de Ana, essa situação é resultante do preconceito do passado de que muitas das atividades da mineração eram “pesadas” e não apropriadas para mulheres. Porém, ela acredita que mudar esta realidade é possível.

“Precisamos de mais políticas afirmativas para garantir uma equidade maior de gênero e mais oportundidades. Um passo importante seria ter mais mulheres como gestoras operacionais e em cargos de direção”, defende.

Há dois anos como gerente de Comunicação da MRN, Ana Freitas encontrou uma empresa que com valores com os quais compactua. “A MRN é uma empresa com quase 50 anos de atuação no Oeste do Pará, em uma região remota e com dificuldade de acesso. Isso, que pode parecer uma fraqueza talvez explique uma das fortalezas da empresa. Temos um time muito comprometido e unido”, enfatiza.

Para as mulheres que desejam ingressar no setor mineral, o conselho de Ana Freitas é “investir na sua formação e conhecer mais sobre o setor acompanhando as notícias em veículos especializados como o CKS Online e outros, participar de eventos, de feiras e persistir. Tem muito campo em todas as áreas na mineração”, afirma.

A perspectiva de futuro de Ana Freitas é seguir transformando. “Gosto de trabalhar com equipes diversas e acompanhar o desenvolvimento das pessoas. Quero formar sucessores e inspirar quem está começando”, conclui.

O desejo de Ana Freitas já é uma realidade. Certamente ela inspirou e inspira muitas pessoas, pois não há nada mais inspirador do que ver uma pessoa movida pelo que acredita, principalmente, quando essa crença contribui com a construção de uma sociedade melhor.

Minerando Histórias é uma coluna do CKS Online que narra a trajetória de pessoas que fizeram/fazem parte da história da Província Mineral de Carajás (PA). Neste Mês da Mulher, realizamos uma edição especial da editoria, entitulada Minerando Histórias Femininas, onde apresentamos a trajetória de diferentes mulheres que trabalham na área da mineração ou tem histórias relacionadas com o setor mineral.

Confira as demais matérias da série já publicadas:

Maria, Maria: a história da mulher que minera a vida em solo Paraense

Da periferia de Belém ao comando em Carajás (PA): a trajetória de Glayce Costa

No comando da usina: Uliliane Costa e a precisão feminina na sala de controle

O lado humano da mineração: Elcilene do Nascimento David e a arte de ouvir as comunidades

Nallia Aquino e a maestria para comandar caminhões gigantes e operações minerais em Carajás

O legado de Ronery Pinho e a missão de proteger a vida

Redação CKS Online / Fotos: Acervo pessoal de Ana Freitas

Uma resposta

  1. Ser jornalista é, por si só, uma missão de coragem. Mas você vai além: encara todos os dias o desafio de comunicar, esclarecer e dar voz a um tema tão complexo e essencial como a mineração. Em meio a dados, opiniões e, muitas vezes, críticas, você se mantém firme, ética e comprometida com a verdade.

    Admiro profundamente a sua capacidade de transformar informação em consciência, de levar ao público não apenas notícias, mas entendimento. Seu trabalho constrói pontes entre a realidade e as pessoas, mostrando que é possível informar com responsabilidade, sensibilidade e equilíbrio.

    Que você nunca perca essa força, essa lucidez e essa paixão que fazem de você uma profissional tão necessária. O seu trabalho faz diferença — e muito mais do que você imagina.

    Fomos colegas na Vale por muitos anos e conheço bem o seu belo trabalho e determinação na área da mineração.
    Siga em frente, com coragem e fé.
    Você inspira!

Deixe o seu comentário

Posts relacionados