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Enquanto o uso da inteligência artificial se consolida na rotina da liderança brasileira, as empresas ainda não conseguiram estruturar a capacitação necessária para acompanhar essa transformação. É o que aponta o levantamento “Lideranças Orquestradoras na Era da IA”, da Talenses Human Capital, consultoria do Talenses Group especializada em potencializar a dimensão humana da transformação organizacional, apresentado ontem, em um evento com líderes de RH de grandes empresas na Casa Osten, em São Paulo.
O estudo ouviu 171 profissionais brasileiros, dos quais 137 ocupam posições de liderança e 64% estão na alta liderança. A IA já faz parte da rotina da maioria: 59% dos líderes dizem utilizá-la diversas vezes ao dia e 23% pelo menos uma vez ao dia. Os principais ganhos percebidos são economia de tempo, apontada por 89%, ganho de produtividade, citado por 86%, e redução de atividades repetitivas, mencionada por 64%.
Apesar da frequência de uso, a maturidade das empresas ainda é baixa. 44% dos respondentes afirmam que suas organizações estão na fase de experimentação individual, enquanto apenas 17% chegaram ao estágio de workflows governados e 2% operam com sistemas adaptativos. Para 52% dos líderes, a falta de conhecimento é o principal obstáculo à adoção da IA nas empresas, à frente da falta de investimento, citada por 29%, e da ausência de direcionamento da própria empresa, mencionada por 28%.
“Segundo os próprios líderes ouvidos na pesquisa, o maior entrave, de longe, é a falta de conhecimento (apontada por 52% dos respondentes). Isso mostra que o problema não é resistência ou desinteresse, é lacuna de capacitação mesmo. E aqui tem um ponto muito relevante: não existe um diagnóstico claro de quais são os principais gaps de conhecimento em IA, para depois desenhar um plano de desenvolvimento corporativo, e ao mesmo tempo individualizado”, explica Denise Rendtorff, sócia e diretora-geral da Talenses Human Capital.
Essa lacuna também se manifesta na forma como os próprios líderes aprenderam a usar a ferramenta. 62% o fizeram por iniciativa própria, e apenas 24% receberam algum tipo de treinamento formal da empresa. Dentro das organizações, 50% oferecem treinamentos formais, 49% promovem workshops e eventos e 40% possuem trilhas de aprendizagem. Ainda assim, 23% não têm nenhuma iniciativa estruturada voltada para IA.
“Isso fica ainda mais evidente quando vemos que 62% dos líderes aprenderam IA por iniciativa própria. Só 24% receberam treinamento formal da empresa, e 23% ainda não têm nenhuma iniciativa estruturada em IA. A tecnologia avançou mais rápido do que a governança e a capacitação”, afirma Denise.
O levantamento também mostra que os próprios líderes enxergam espaço para uma transformação maior das atividades. 46% avaliam que algumas tarefas ainda realizadas por pessoas poderiam ser executadas por IA, enquanto 40% afirmam que muitas atividades poderiam ser automatizadas. Entre os usos mais frequentes da tecnologia estão pesquisa e síntese de informações, citadas por 85%, resumo de documentos, por 69%, criação de apresentações, por 64%, e geração de conteúdo, por 55%.
Para a executiva, o próximo passo da liderança brasileira já está claro. “Também acho importante ressaltar que 65% dos líderes já entendem que a competência mais importante dos próximos anos será orquestrar o trabalho entre pessoas e IA. Não é só sobre dominar uma ferramenta, é sobre repensar em uma nova arquitetura de processos e times e, por fim, como tirar o melhor de agentes e humanos de forma sincronizada. Os líderes brasileiros estão emocionalmente preparados e curiosos (72% sentem entusiasmo, 71% curiosidade), mas as empresas ainda não criaram a estrutura necessária em termos de estratégia, cultura, treinamento e governança para sustentar esse movimento com consistência”, completa.
Na sequência, os líderes apontam desenvolvimento de talentos (58%) e governança, ética e uso responsável da IA (54%) como as competências mais relevantes dos próximos anos. Conduzir a transformação contínua aparece para 50% dos entrevistados.
O maior risco, na visão dos respondentes, é o descompasso entre velocidade e preparo. 31% consideram que acelerar a adoção da IA sem preparar pessoas e processos é o principal risco, e 19% temem investir em tecnologia sem desenvolver competências. A resistência à mudança, embora presente, recebeu nota média 4 em uma escala de 10 e aparece principalmente na mudança de processos, citada por 50%, no aprendizado, por 29%, e no medo de substituição, por 24%.
Não por acaso, 72% dos líderes defendem fortalecer a aprendizagem contínua como prioridade cultural das empresas. Experimentação é apontada por 58%, compartilhamento de conhecimento por 55% e tomada de decisão baseada em dados por 53%. Ao mesmo tempo, 39% dos respondentes admitem sentir medo de ficar para trás.
Texto: Danielle Mota / Mosaike Comunicação







