Maria da Graça em sua terra, onde plantou cerca de três mil pés de cacau.
Em celebração ao Dia Internacional da Mulher – 8 de março – Minerando Histórias Femininas inicia com a trajetória de uma mulher que há mais de quatro décadas se mudou para o Pará e construiu sua trajetória marcada por luta e perseverança.
Na zona rural de Ourilândia do Norte, município localizado na Região Sudeste do Pará, a 940 km de Belém, a história de uma mulher se confunde com a própria identidade da comunidade onde vive. Viúva, mãe de um filho, morando em casa simples cercada pela paisagem da roça, de onde tira o sustento para sobrevier, Maria da Graça Correia carrega uma história marcada pelo trabalho duro e pela resistência no campo.
Nascida no Maranhão, ela lembra de que começou a trabalhar ainda criança. “Eu tinha dez anos quando comecei a trabalhar na roça com meus pais”, comenta. Filha de maranhenses da região de Mearim, Maria cresceu em meio às atividades rurais, aprendendo desde cedo que o sustento da família vinha da terra. Ela frequentou a escola para cursar somente a primeira série do ensino fundamental, o que não garantiu ser completamente alfabetizada, pois sabe apenas assinar o próprio nome. Há mais de quatro décadas ela deixou o estado natal e se mudou para o Pará, onde continuaria a construir sua trajetória marcada pela luta e pela perseverança.
Antes de se estabelecer definitivamente no campo paraense, Maria viveu diferentes fases da economia regional. Quando chegou ao Estado do Pará, o garimpo vivia um período de intensa atividade. Ela seguiu o fluxo de trabalhadores em busca de oportunidades e passou a trabalhar nas áreas de garimpo, atuando nas chamadas currutelas, pequenas comunidades que surgem ao redor das frentes desse tipo de trabalho.
“Eu sempre gostei de trabalhar para viver a minha vida”, diz ela. Com a diminuição do garimpo, à época, ela deixou a atividade e passou a trabalhar em áreas próximas às fazendas, seguindo a rotina de muitos trabalhadores rurais que sobrevivem de serviços temporários no interior da Amazônia.
Foi nesse período que Maria construiu uma nova família. Ao lado de um companheiro, trabalhou durante anos na região. O casal viveu junto por cerca de sete anos, dividindo a rotina de trabalho no campo. A história, porém, foi interrompida por um episódio de violência no campo. O companheiro foi assassinado por pistoleiros, um crime que marcou profundamente a vida da agricultora.

A tragédia, no entanto, acabaria desencadeando um processo que mudaria o destino da área. À época, uma norma vinculada à política de reforma agrária previa que propriedades onde trabalhadores fossem mortos em conflitos fundiários poderiam ser desapropriadas para fins de assentamento. Com o apoio de lideranças locais, foi iniciado um processo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Alguns anos depois, a área foi oficialmente desapropriada, abrindo caminho para a criação de um assentamento rural.
Maria recebeu então o direito a um lote de terra, onde passou a viver e trabalhar até hoje. No terreno, ela construiu sua própria forma de sustento. Plantou cerca de três mil pés de cacau, além de algumas árvores de açaí. Grande parte do plantio foi feita com o esforço das próprias mãos. “Meu filho me ajudou um pouco, mas o resto fui eu sozinha, na companhia de Deus”, conta. A renda que garante sua sobrevivência vem principalmente da produção na terra e de uma pequena aposentadoria.
A área onde vive se transformou no Projeto de Assentamento que leva o seu apelido: Maria Preta, nome pelo qual é conhecida na região. A homenagem surgiu durante o processo de organização do assentamento. Em uma assembleia com os moradores, lideranças colocaram diferentes sugestões de nomes em votação. O escolhido foi o que lembrava a história de Maria e a violência que marcou a origem da área. Desde então, o assentamento passou a ser identificado com o nome que simboliza sua trajetória de luta.
Mesmo após décadas de trabalho e dificuldades, Maria afirma que não pensa em deixar o lugar. Ela diz que não gosta da vida na cidade e prefere permanecer no campo, cuidando da terra que conquistou.
Para outras mulheres que vivem situação semelhante, viúvas ou sozinhas em áreas rurais, ela deixa um conselho simples, mas carregado de experiência: não desistir. “Se apegue com Deus e não desista do seu objetivo”, diz. Entre o cacau, o açaí e a rotina da roça, Maria segue vivendo da terra e mantendo viva a história que ajudou a construir.
Enfim, é a história de uma mulher que ensina sobre dignidade, resistência e força. Maria leva uma vida simples, mas expressiva em significado. É como diz Milton Nascimento, em trecho de sua canção Maria, Maria, “é um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta, uma mulher que merece viver e amar, como outra qualquer”.
Texto: Emanuel Jadir Siqueira












Respostas de 3
Parabéns Emanuel Siqueira, por relatar e contextualizar a vida dessa Mulher Guerreira que se chama Maria Correia, e também parabenizando o CK ONLINE por publicar essa belíssima matéria.
Uma história de força, garra e resistência. D. Maria, uma mulher que motiva pelo seu exemplo de resiliência, representa muito bem as mulheres nesse dia em homenagem a todas as mulheres guerreiras. Parabéns, pela matéria motivadora.