A história de Flávio Corrêa, pioneiro da Província Mineral de Carajás, daria facilmente um filme. E agora, graças ao livro recém-lançado Minerando Vitórias, ela também se transforma em literatura. Prestes a se aposentar em 2026, após 40 anos dedicados à mineração e à formação de profissionais, Flávio revive memórias de luta, superação e conquistas — muitas delas reveladas com exclusividade ao CKS Online.
O começo: um ônibus lotado, calor sufocante e uma mudança de destino
Década de 1980. Flávio Corrêa, nascido em Marabá e então semi-analfabeto aos 21 anos, embarca rumo à famosa Serra Pelada, movido pela corrida do ouro. No ônibus abarrotado de sonhadores da empresa Transbrasiliana a “3T” ele conhece um colega de viagem cujo alerta mudaria sua vida.
“Rapaz, não vai pra Serra Pelada. Tá caindo muito barranco. Muita gente morrendo”, aconselhou o companheiro, lembrando das escadas conhecidas como “Adeus Mamãe”, que deixavam muitas famílias sem seus filhos.
Aquilo bastou. Assustado e sem dinheiro, Flávio decidiu mudar de destino ali mesmo, dentro do ônibus. Seguindo o conselho, desceu em Parauapebas —à época apenas um ponto de chegada para quem tentava subir a Serra dos Carajás em busca de oportunidade.
Três dias “acorrentado” na portaria
Flávio chegou a Parauapebas em 5 de fevereiro de 1983. Tentou subir a serra para ir à Vila de N-5, onde existia o alojamento da então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), hoje mineradora Vale, localizada a cerca de 30 km da região central da cidade, pela portaria principal, que na época era conhecida como “Corrente”, pois, diferentemente da imponente estrutura atual, naquele período havia apenas uma enorme corrente no local. A “Corrente” não baixou para que Flávio entrasse, ou seja, ele foi barrado. Sem dinheiro e sem apoio, ficou três dias esperando uma chance para subir a serra, com fome, sobreviveu apenas comendo mamão verde.
Ele conta esse episódio com humor, mas sem esconder a emoção: “Passei três dias ‘acorrentado’ na portaria da maior mineradora do mundo, e o que tinha para comer era mamão verde”, relembra utilizando a expressão ‘acorrentado’, em referência ao período que ficou impedido de entrar em Carajás.
De garçom a servente: o início da luta
Após três dias, ele finalmente conseguiu subir a serra. A primeira oportunidade de emprego surgiu em um hotel, onde trabalhou como garçom e, depois ajudante de serviços gerais. Em seguida, tornou-se servente em uma empresa terceirizada da Companhia Vale do Rio Doce. Foi esse esforço que lhe abriu a porta definitiva.
1985: ingresso na CVRD e o conselho que transformou sua vida
Em 1985, Flávio conquistou sua vaga na CVRD. Começou no laboratório físico, mas ainda não tinha formação escolar. Até que, um dia, seu chefe, Josué Cunha, o chamou à temida “sala fria”. E deu o ultimato: “Ou você se qualifica, ou não trabalha mais aqui. Você precisa estudar, Flávio. Você tem uma filha de dois anos. Dê um futuro melhor para sua família”, enfatizou.

Flavio Corrêa e seu primeiro líder na CVRD / Vale Josué Cunha
O choque virou combustível. Incentivado por quem acreditava no seu potencial, Flávio concluiu o supletivo, fez o ensino médio e se formou em Técnico em Mineração. Daquele momento em diante, sua ascensão se tornaria referência.
Josué Cunha, entrevistado pelo CKS Online, reforçou: “Ele era dedicado, responsável, sempre pronto para ajudar. Eu sabia que ele tinha um futuro brilhante.”
A virada para a Mina de N4 e a projeção internacional
Qualificado, passou para a área operacional da mina de N4, começou a treinar equipes e se destaca. O desempenho leva Flávio aos Estados Unidos em 2009, onde se torna Instrutor Internacional no famoso centro de treinamento da Caterpillar.
2020: a pandemia e o empurrão decisivo — o depoimento de Herbet Cordeiro
Quando a pandemia da Covid-19 paralisou os treinamentos presenciais, Flávio viveu uma de suas maiores incertezas. Distanciamento, protocolos de saúde e a suspensão das aulas ameaçaram impedir que ele fizesse o que mais ama: ensinar.
É então que entra em cena Herbert Cordeiro, líder direto de Flávio na época. Ele percebe que o instrutor ficaria praticamente impossibilitado de trabalhar caso não se adaptasse. Ao CKS Online, Herbet relembra que decidiu agir.

Herbert Cordeiro e Flavio Corrêa
“Eu não podia deixar o Flávio parado. Sabia do potencial dele. Incentivei para que ele entrasse no mundo digital, aprendesse as novas plataformas e continuasse ensinando”, frisou.
Segundo Herbert, o resultado o surpreendeu — e o encheu de orgulho. “Flávio abraçou a tecnologia com uma rapidez impressionante. Aprendeu ferramentas novas, melhorou a captação das turmas e seus treinamentos ficaram ainda mais eficientes. Ver a evolução dele foi motivo de orgulho. Ele não só se adaptou, ele se destacou”, avaliou.
Esse passo, impulsionado por Hebert, permitiu que Flávio continuasse formando pessoas durante a pandemia e o preparou para uma nova fase de excelência profissional.
Um legado gigante: quase 10 mil profissionais formados
Somando presencial e digital, Flávio já formou quase 10 mil profissionais da mineração. Sua marca está em operadores, técnicos, supervisores e líderes de toda a região.
Ronielle Marçal e o nascimento do livro
Em 2023, ao reencontrar o instrutor que o formou, o ex-aluno Ronielle Marçal descobriu que Flávio iria se aposentar. Isso o tocou profundamente. “Ele é um exemplo de vida. Não podia deixar a história dele se perder”, destacou.

Ronielle Marçal e Flavio Corrêa
Ronielle o incentivou a escrever um livro. Após seis meses relutando, Flávio aceitou o desafio e começou a rascunhar sua história nas folgas. Nasce, no final de 2024, “Minerando Vitórias”, um livro de 53 páginas que resume quatro décadas de lutas e conquistas.
Família: o alicerce da vitória
Flávio é casado há 36 anos com Zilma Freitas, pai de Fabiola Freitas (engenheira química) e Fabrício Freitas (engenheiro civil). A transformação de sua vida ecoa nos filhos.

Flavio Corrêa e a família
40 anos de Carajás, 40 anos de Flávio
Um ano em que Carajás celebra 40 anos de história, Flávio Corrêa também completa quatro décadas dedicadas à mineração — duas trajetórias que nasceram juntas e cresceram lado a lado. O livro Minerando Vitórias reúne muitos outros episódios marcantes dessa jornada e merece ser lido por quem busca inspiração verdadeira.
A vida de Flávio é prova de que, com coragem, fé e oportunidade, um jovem que chegou com nada pode transformar tudo. Do jovem que passou três dias comendo mamão verde na portaria da CVRD, ao instrutor internacional que formou quase 10 mil pessoas, Flávio construiu uma história de superação que honra a maior província mineral do planeta.
CKS Online se orgulha de contar um pouco dessa história.
Redação CKS online











