Nallia de Sousa Lima Aquino na Mina N5, em 2024 / Foto: Acervo pessoal
As mulheres conquistaram o direito de dirigir no Brasil somente nos anos 1930, entretanto, ainda hoje, não recebem os mesmos estímulos que os homens para conduzir veículos. Brincar com carrinhos é uma atividade vista como “coisa de menino”. E, apesar de os homens serem responsáveis pelo maior número de acidentes de trânsito, é às mulheres que atribuem à condução perigosa. E é avaliando a partir deste cenário da nossa sociedade, carregado de estereótipos e preconceitos, que a trajetória de Nallia de Sousa Lima Aquino torna-se tão especial.
Nossa personagem de hoje da série Minerando Histórias Femininas atua há mais de uma década na U&M Mineração e Construção onde não apenas acompanhou o crescimento do setor mineral, como também evoluiu de operadora de máquinas a Supervisora de Produção. Ela não operou apenas máquinas comuns; ela dominou os “titãs” das minas: caminhões fora de estrada, modelos 730, 830 e 930, que chegam a transportar cargas de até 320 toneladas.
“Iniciei como operadora de caminhão fora de estrada e, com o tempo, tive a oportunidade de operar caminhões de maior porte. Também retornei ao campo para operar motoniveladora e atuar como apoio, função em que aprendemos muito sobre liderança e gestão de equipes no dia a dia das operações”, recorda Nallia.



Um início inesperado
Nallia é natural de Tucuruí (PA), mas cresceu no Maranhão, em Barra do Corda, cidade natal de sua mãe. Ela retornou ao Pará já adulta e jamais havia pensado em trabalhar no setor mineral. “Eu não tinha ideia de como funcionava essa área”, relembra.
Quando chegou a Parauapebas (PA), municicípio que abriga a Província Mineral de Carajás, nem imaginava como funcionava uma mina. “Foi apenas em 2009 que despertei o interesse pela área e comecei a buscar formas de me inserir nesse mercado”, conta.



Em 2010, por meio de um programa de trainee da Mineradora Vale, Nallia ingressou na área da mineração. “Comecei atuando como operadora de caminhão fora de estrada e caminhão articulado”, informa ela como se referisse a uma tarefa simples.
Neste período, ela também começou a fazer o curso de Técnico em Segurança do Trabalho, reforçando algo que é prioridade em sua trajetória: o aprimoramento profissional.
O equilíbrio entre os ciclos da vida e a carreira
Para Nallia, a mineração e a maternidade caminharam juntas. Em 2013, encerrou seu ciclo na Vale e teve sua primeira a filha, Nikolly. Porém, tornar-se mãe não lhe fechou portas, nem impediu que continuasse crescendo na sua carreira.
No ano seguinte, ela ingressou na U&M – empresa que atua há mais de 30 anos em Carajás na prestação de serviços e na locação de equipamentos para grandes movimentações de solo e rocha em obras de infraestrutura e mineração – e iniciou uma jornada de fidelidade e crescimento. No começo, continuou como operadora de caminhão fora de estrada e realizou o estágio do curso de Segurança do Trabalho. “Nessa ocasião, tive a oportunidade de passar por vários setores da empresa, como o RH e a área de manutenção. Posteriormente retornei ao campo, onde também operei motoniveladora.”
Em 2019, Nallia teve uma grande surpresa: “Descobri que estava grávida de gêmeos, Theo e Noan. Mesmo assim, continuei minha trajetória profissional. Em 2022 fui convidada pela empresa para fazer parte do quadro de cargos de confiança, assumindo a função de Encarregada de Produção, cargo que estou exercercendo”, relata.
Atualmente, Nallia concilia a criação dos três filhos com a rotina exigente de uma supervisora de produção e ainda está concluindo os estudos de Engenharia de Produção. Uma realidade desafiadora que é vivida por muitas mulheres.

Nallia com a filha Nikolly e os filhos Theo e Noan
“A dificuldade não está no trabalho nem na rotina da mineração. Muitas vezes o maior desafio está no nosso próprio processo de vida: o desafio de cuidar de pessoas, ser mãe, esposa, estudar e ainda encontrar tempo para cuidar de nós mesmas”, avalia.
Rompendo barreiras culturais na U&M
Com quase 12 anos atuando na U&M, Nallia é uma voz ativa contra o machismo estrutural que ainda tenta rotular a mineração como “coisa de homem”. Para ela, o espaço da mulher não deve ser uma cota, mas um reconhecimento genuíno de valor.
“Acredito que ainda seja uma questão cultural. As empresas precisam oferecer oportunidades, mas também acreditar que somos plenamente capazes. Não queremos ser vistas como um peso ou apenas preencher porcentagens, queremos mostrar nossa capacidade e nosso valor profissional”, ressalta.
Olhando para o futuro
Prestes a concluir a graduação em Engenharia de Produção, Nallia não planeja parar na supervisão. Seu olhar está fixo em novos horizontes dentro da U&M, empresa que ela agradece pelas oportunidades que teve na carreira e no suporte oferecido para seu desenvolvimento profissional.
“Tenho muito orgulho da minha trajetória e das oportunidades de crescimento que tive dentro da U&M. A empresa nunca fez distinção de onde eu comecei e onde posso chegar. Estou caminhando para completar 12 anos na empresa e ainda tenho muitas ambições profissionais, como me tornar coordenadora e, quem sabe, até gerente. Tudo isso é possível porque eu não apenas acredito nessas oportunidades, eu vejo e vivo essa realidade dentro da empresa onde trabalho”, enfatiza.








Para as mulheres que desejam entrar nesse mundo, Nallia alerta que a mineração é uma área que exige dedicação, disciplina e responsabilidade, mas que também oferece grandes oportunidades de crescimento. “Minha trajetória mostra que, com esforço, estudo e perseverança, é possível evoluir e conquistar espaço, independentemente de onde começamos. Acreditem em si mesmas e não tenham medo dos desafios”, aconselha.
Afinal, para quem já comandou máquinas que transportam toneladas, não existe obstáculo que não possa ser superado com dedicação e disciplina.
Minerando Histórias é uma coluna do CKS Online que narra a trajetória de pessoas que fizeram/fazem parte da história da Província Mineral de Carajás (PA). Neste Mês da Mulher, realizamos uma edição especial da editoria, entitulada Minerando Histórias Femininas, onde apresentamos a trajetória de diferentes mulheres que trabalham na área da mineração ou tem histórias relacionadas com o setor mineral.
Confira as demais matérias da série já publicadas:
Maria, Maria: a história da mulher que minera a vida em solo Paraense
Da periferia de Belém ao comando em Carajás (PA): a trajetória de Glayce Costa
No comando da usina: Uliliane Costa e a precisão feminina na sala de controle
O lado humano da mineração: Elcilene do Nascimento David e a arte de ouvir as comunidades
Redação CKS Online / Fotos: Acervo pessoal de Nallia












Uma resposta
Parabéns!!!! Deus abençoe sempre sua vida. Mulher, guerreira, menina. Quantas faces tem uma mulher? Terá quantas ela puder!