A oceanógrafa brasileira Leticia Carvalho, atual secretária-geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), afirmou que o mundo deve estabelecer, até o fim deste ano, um conjunto de regras definitivas para a exploração mineral em águas profundas. Segundo informações da Folha de S.Paulo, a líder do órgão vinculado à ONU considera “existencial” que as 170 nações alcancem um consenso para evitar que o oceano se torne um “velho oeste” sem regulamentação internacional.
A urgência para a conclusão deste acordo, frequentemente chamado de “código de mineração”, foi intensificada pela postura assertiva do governo de Donald Trump. De acordo com a Folha de S.Paulo, os Estados Unidos sinalizaram a intenção de emitir licenças unilaterais para a mineração em águas internacionais, ignorando os padrões da ISA. Essa movimentação pressiona a comunidade global a formalizar diretrizes que garantam que essas áreas, consideradas patrimônio comum da humanidade, sejam geridas coletivamente.
No entanto, o avanço dessa pauta enfrenta forte resistência. Conforme destaca a Folha de S.Paulo, órgãos ambientalistas são contrários à mineração do fundo do mar, alertando para danos irreversíveis aos ecossistemas abissais. Entidades como o Greenpeace Internacional e a Fundação Oceano Azul argumentam que a pressa para aprovar as regras pode resultar em um texto negligente, colocando em risco a biodiversidade marinha, que inclui corais milenares e espécies ainda pouco conhecidas pela ciência.
A zona de maior interesse para as mineradoras é a região de Clarion-Clipperton, no Oceano Pacífico, onde o leito marinho é rico em nódulos de cobalto, níquel e manganês. Empresas como a canadense The Metals Company já se preparam para iniciar as operações comercialmente. Em contrapartida, cientistas citados pela Folha de S.Paulo reiteram que a coleta desses minerais pode reduzir a abundância da vida marinha local em até 30%, destruindo habitats essenciais para a saúde dos oceanos.
A posição de Leticia Carvalho é estratégica, sendo ela a primeira cientista a chefiar a ISA. Embora seu papel exija imparcialidade na mediação entre os Estados-membros, ela defende que as regulamentações podem ser aperfeiçoadas com o tempo. A Folha de S.Paulo reporta que a secretária-geral foca agora em resolver 32 questões pendentes no texto, buscando um equilíbrio entre o que é “desejável” e o que é “tolerável” para viabilizar o acordo histórico.
Atualmente, cerca de 40 países e diversas organizações de defesa do meio ambiente pedem uma moratória ou a proibição total da atividade. O argumento central dos críticos, reforçado pela Folha de S.Paulo, é que a mineração em larga escala não deveria ser tratada como inevitável enquanto as consequências ecológicas de longo prazo não forem totalmente compreendidas e mitigadas, contrastando com o otimismo comercial das potências interessadas.
Apesar das divergências, as reuniões anuais em Kingston, na Jamaica, seguem como o palco principal para este embate diplomático. Leticia Carvalho encara a possível finalização do código de mineração sob sua gestão como a maior conquista de sua carreira. Como aponta a Folha de S.Paulo, o desfecho dessas negociações em 2026 definirá se a exploração das profundezas oceânicas seguirá um rito multilateral ou se será ditada por interesses nacionais isolados.











