Piauí dedica dez páginas à primeira parte do perfil de Lúcio Flávio Pinto, um dos maiores jornalistas do Pará

Em texto assinado pelo documentarista João Moreira Salles, revista detalha a trajetória do intelectual sob o título "O insubmisso", revelando as origens de sua combatividade na Amazônia e o respeito que conquistou Brasil afora

A prestigiada revista Piauí dedica, em sua edição de março, dez páginas à primeira parte de um extenso perfil sobre Lúcio Flávio Pinto, amplamente reconhecido como um dos maiores jornalistas do Pará. O texto, intitulado “O insubmisso”, é assinado pelo documentarista e fundador da revista, João Moreira Salles. Este trecho inicial da obra mergulha nas raízes da formação humanista do jornalista, entrelaçando sua biografia a eventos marcantes da resistência e do conflito agrário na Amazônia.

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A narrativa começa resgatando o encontro entre o então jovem Ricardo Rezende e a freira Maurina Borges, no México, durante os anos 1970. Única religiosa torturada pela ditadura militar brasileira, Maurina vivia o drama do exílio sem compreender plenamente as razões de sua perseguição. O impacto desse sofrimento levou Rezende a se tornar padre e a atuar no epicentro dos conflitos de terra em Conceição do Araguaia, onde cruzaria o caminho de um jovem repórter de memória prodigiosa: Lúcio Flávio Pinto.

Moreira Salles descreve o momento em que Lúcio Flávio, ainda aos 30 anos, impressionou a Igreja e os movimentos sociais ao demonstrar um conhecimento enciclopédico sobre a estrutura fundiária da região. Em uma coletiva em Belém, enquanto o futuro padre Rezende se perdia em dados, Lúcio fornecia de cabeça nomes de fazendeiros, proprietários e metragens exatas de terras em conflito. Ali já se desenhava o rigor técnico que marcaria sua carreira jornalística.

O perfil também aborda o crepúsculo da atividade diária do jornalista, motivado pelo avanço do Parkinson. Em um relato comovente, Salles cita o post “Perdão, leitores”, de 2023, no qual Lúcio anunciou sua despedida do blog pessoal após cometer um erro involuntário em uma nota. “Não quero cometer um novo erro desse tipo por redução da capacidade cognitiva”, escreveu o jornalista, demonstrando a integridade ética que manteve mesmo diante de uma doença degenerativa.

Ao visitar Lúcio em seu modesto apartamento em Belém, em 2025, o autor nota que a fragilidade física do homem de 75 anos desaparece assim que ele começa a falar. A memória permanece vasta e as palavras precisas, convocando um repertório imbatível sobre grilagem, desmatamento e crimes de encomenda. Sua herança familiar, vinda de seringais e do sertão cearense, reflete a própria ocupação da Amazônia, entre a elite de Santarém e a pobreza do bairro da Aldeia.

A precocidade de sua carreira é outro ponto alto do texto de Salles. Aos 15 anos, Lúcio já sofria sua primeira censura em um programa de rádio; aos 16, estreava no jornal A Província do Pará. Seu primeiro artigo publicado, sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, já revelava um estilo recheado de convicções morais e indignação retórica, características que o acompanhariam por mais de cinco décadas de profissão.

Um divisor de águas apontado na reportagem é a cobertura do Simpósio sobre a Biota Amazônica, em 1966. Ao conviver com cientistas estrangeiros no Museu Goeldi, o jovem repórter percebeu que o conhecimento sólido e a disciplina eram as únicas armas para compreender a floresta. Essa base científica tornou-se o pilar de suas reportagens, diferenciando-o de jornalistas que cobriam a região de forma superficial ou distanciada.

Este primeiro capítulo de “O insubmisso” estabelece Lúcio Flávio Pinto não apenas como um cronista da Amazônia, mas como uma bússola moral do jornalismo brasileiro. João Moreira Salles utiliza o perfil para mostrar como a trajetória de Lúcio se funde à história da própria região, transformando denúncias técnicas em um manifesto contínuo contra a brutalidade e o esquecimento.

A primeira parte do perfil está disponível na íntegra na revista, para assinantes, e demonstra que a atuação dele ultrapassou as barreiras da Amazônia e o levou a ser respeitado em todo o país.

O jornalista também republicou o texto, na íntegra, em seu site: Clique aqui para ler.

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