Uma trajetória “liggada” a Carajás: Conheça a história de amor pela mineração de Gerson Petterle

CEO da Ligga, mineradora que vem se destacando no mercado local, o engenheiro participou da implantação do projeto da Vale em Carajás, rodou o Brasil, e retornou para implantar o seu projeto de "mineração moderna"

Trajetória na implantação de Carajás e agora CEO da Mineradora Ligga (Foto: Acervo)

Quarenta anos atrás, em 1995, quando desceu do avião, no meio da Floresta Nacional de Carajás, Gerson Peterlle sentiu duas coisas: Primeiro, um calor surreal para quem vinha da fria Curitiba, capital do Paraná. Depois, a sensação de que sua vida iria mudar para sempre. E mudou. Aquele garoto de 24 anos, recém-formado engenheiro, e que só queria trabalhar na área, hoje tem uma trajetória ligada à implantação do maior projeto de mineração do planeta, rodou o Brasil em grandes empreendimentos, e dirige a Mineradora Ligga, que vem se destacando há quatro anos no mercado local e que ele quer que “seja exemplo de mineração moderna”

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O CKS Online entrevistou com exclusividade o engenheiro, remontou sua história, desde o início da implantação do projeto Carajás, o trabalho junto à Vale, as idas e vindas na engenharia, até a migração para o empreendedorismo, na mineração. O bom profissional, como ele destaca, “é aquele que vai perseverar, independente dos momentos difíceis, ele vai estar sempre se esforçando, porque as oportunidades elas aparecem”.

A história de Carajás e de Gerson, nessas décadas, estão intimamente ligadas. “O Pará faz parte da minha vida, a região faz parte da minha vida”, diz, lembrando que dois de seus filhos nasceram aqui.

Confira abaixo a entrevista completa:

Família

Sou natural de Ponta Grossa e engenheiro civil formado pela Universidade Federal do Paraná. Fui casado por 28 anos, tive três filhos — duas filhas e um filho — e, após ficar viúvo, casei-me novamente. Do segundo casamento, ganhei um casal de enteados. Hoje, minha família reúne cinco filhos, quatro netos e um quinto neto a caminho.

Chegada à Carajás

Quando me formei, em 1984, eu já era casado e tinha uma filha. O Brasil atravessava um período de crise econômica e, no início da carreira, eu estava em busca de boas oportunidades profissionais. Foi nesse contexto que surgiu a possibilidade de atuar na implantação de um projeto de mineração, um caminho pouco comum para um recém-formado do Paraná, estado de perfil predominantemente agrícola.

Com a decisão tomada, cheguei ao Projeto Carajás, em abril de 1985, para atuar diretamente na implantação do empreendimento. À época, minha motivação era essencialmente técnica, voltada à engenharia, sem ainda a dimensão de que essa escolha, feita aos 24 anos, acabaria por orientar de forma decisiva a minha trajetória profissional.

Relembre no vídeo abaixo como foi a implantação de Carajás:

Parauapebas e o Projeto Carajás

Em 1985, a região de Carajás ainda dava seus primeiros passos. Parauapebas começava a se estruturar, com as primeiras localidades e comércios, em um cenário marcado por grandes desafios logísticos. Do ponto de vista da engenharia, empregou-se no projeto o que havia de mais moderno à época. O grande desafio, no entanto, era vencer a logística: implantar, em plena Floresta Amazônica, uma estrada de ferro de cerca de 800 quilômetros e viabilizar um empreendimento daquela magnitude.

Além da obra em si, havia um desafio humano e operacional igualmente relevante. Era necessário trazer profissionais de diferentes regiões do país, mantê-los em uma área remota e criar toda a infraestrutura de suporte — alojamentos, refeitórios, áreas de convivência e espaços de lazer — capaz de oferecer condições adequadas de vida a um grande contingente de pessoas durante a execução do projeto. Essa logística humana foi parte central do desafio do Projeto Carajás.

Foi nesse contexto que cheguei a Carajás motivado essencialmente pela engenharia e comecei a ampliar minha visão sobre o mercado e sobre o setor de mineração. Permaneci cerca de um ano e meio no projeto, inicialmente muito ligado à engenharia e à fase de implantação, mas percebia que era o momento de buscar ampliar a experiência prática, executando e vivenciando a obra diretamente no campo.

Ao final de 1986, deixei Carajás para assumir novos desafios profissionais. Atuei como engenheiro residente em obras industriais, participando da implantação de uma usina industrial, com atuação nas áreas civil e eletromecânica. Em seguida, trabalhei no setor petroquímico, especialmente em reformas de bases de combustíveis, já como empreiteiro.

Em 1989, recebi o convite para retornar a Carajás, agora em um momento distinto do empreendimento, já na fase operacional. Voltei para atuar na área de engenharia, dentro da planta e do ambiente operacional.

Implantação do projeto na década de 80 (Foto: Divulgação)

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Carreira em Mineração

A partir desse retorno em 1989, minha ligação com a mineração só se fortaleceu. O projeto já estava em fase operacional e, mesmo atuando na engenharia, passei a ter contato direto com a operação, o que consolidou minha decisão de seguir carreira no setor.

A mineração também foi decisiva para o meu desenvolvimento como engenheiro. Ao longo da trajetória, tive a oportunidade de atuar na construção de estradas, plantas industriais, áreas habitacionais, portos, túneis e barragens. Isso me permitiu desenvolver uma visão ampla da engenharia aplicada a projetos de grande escala.

Com o tempo, esse caminho me levou da engenharia para a operação e, depois, para a gestão. Passei por áreas como manutenção, operação, administração, controladoria e suprimentos, o que me deu uma visão integrada da gestão de uma companhia de mineração.

Hoje, após quase 40 anos no setor, é motivo de grande orgulho voltar a Carajás e saber que pude contribuir, desde os primeiros momentos, para um projeto da dimensão e da importância de Carajás.

Serra de Carajás: Boas-vindas no início da implantação (Foto: Divulgação)

A experiência na Vale

Engajar-me no Projeto Carajás logo no início da carreira foi extremamente promissor. Atuei em um ambiente que valorizava tecnologia e inovação, em um setor que evoluiu significativamente ao longo do tempo, tanto em equipamentos quanto em gestão. Em Carajás, a preocupação ambiental sempre existiu e se ampliou para uma visão que incorpora também o desenvolvimento social, o que foi decisivo para a minha formação e trajetória na mineração.

A Ligga e o retorno à região

Em 2021, após quatro décadas, retornar a Carajás como CEO da Ligga teve um significado especial. Somaram-se aos laços pessoais com a região a oportunidade de desenvolver um novo projeto — o primeiro desde o início de Carajás — e de estruturar uma empresa que já nasce orientada por princípios de sustentabilidade, responsabilidade ambiental e compromisso social.

Sobre a Ligga | Seu início | Sua produção e operação

A operação piloto da Ligga teve início há quatro anos, mas o projeto começou bem antes, com as primeiras pesquisas minerais em 2014, quando a empresa ainda atuava como Rio Minas Mineração. Foram cerca de dez anos de estudos, fundamentais para o desenvolvimento do projeto, especialmente porque, diferentemente de Carajás, onde as jazidas apresentam maior homogeneidade, as jazidas exploradas pela Ligga são heterogêneas, o que torna o projeto mais complexo e desafiador do ponto de vista da exploração mineral, exigindo maior aprofundamento técnico, estudos detalhados e soluções específicas ao longo do seu desenvolvimento.

Nesse período, a Ligga avançou de forma gradual e estruturada. A produção inicial, em torno de 600 mil toneladas, foi ampliada para cerca de 2 milhões de toneladas. Em outubro, a empresa obteve a Licença de Instalação para a expansão do projeto, que prevê a construção de uma nova planta com capacidade de 6 milhões de toneladas, elevando a produção total para aproximadamente 8 milhões de toneladas. Como a licença foi concedida no final do ano, o cronograma precisou ser reavaliado em função do período de chuvas e do início das obras pela terraplanagem, mas já há a perspectiva de iniciar etapas da implantação ao longo de 2026. Durante o pico das obras, a expectativa é gerar entre 1.000 e 1.500 empregos e, na fase operacional, manter cerca de 600 postos de trabalho diretos e indiretos.

Ligga aposta em projetos sociais (Foto: Acervo mineradora)

Projetos sociais, relacionamento com as comunidades e priorização da mão de obra local

Paralelamente ao desenvolvimento técnico do projeto, a Ligga incorporou desde o início uma atuação social estruturada, não como condicionante, mas como parte da sua cultura e da forma como entende uma mineração responsável. Foram desenvolvidos programas como o Ligga Campeã, voltado à juventude e à inclusão por meio do esporte; o Liggando as Letras, focado no reforço escolar; e o RevELLA, direcionado especialmente às mulheres, com ênfase no desenvolvimento de habilidades e na geração de renda. O eixo central desses programas é promover autonomia, dignidade e desenvolvimento sustentável para as famílias das comunidades onde a empresa atua.

Esse compromisso se reflete também na forma como a Ligga se relaciona com as comunidades do entorno. Mantemos uma relação transparente, com reuniões periódicas, canais permanentes de diálogo e iniciativas como o programa Portas Abertas, que permite à comunidade conhecer a empresa, seus projetos e acompanhar o estágio de desenvolvimento de cada iniciativa. Essa escuta ativa orienta tanto nossos programas sociais quanto nossas decisões operacionais.

Além disso, estamos ampliando os programas de preparação de mão de obra, tanto para a fase de construção quanto para a futura operação, sempre com foco na contratação local. Atualmente, cerca de 95% do nosso efetivo é formado por profissionais contratados em Parauapebas e no Pará, sendo uma parcela significativa oriunda das comunidades do entorno dos projetos, reforçando nosso compromisso com o desenvolvimento local e a geração de oportunidades de forma sustentável.

Legado da Ligga e do profissional Gerson Petterle

Acredito que um dos grandes legados da Ligga é o seu pioneirismo ao desenvolver um projeto de mineração nessa região, demonstrando que é possível viabilizar empreendimentos de pequeno e médio porte em um contexto desafiador. Não se trata de dizer que é simples, mas de mostrar que é viável quando há planejamento, rigor técnico e responsabilidade socioambiental.

As grandes jazidas e reservas minerais, em geral mais homogêneas, já estão amplamente mapeadas e, em grande parte, em operação. O Pará, no entanto, é extremamente rico em recursos minerais e abriga inúmeras jazidas de menor porte, muitas delas heterogêneas, mais complexas e tecnicamente mais exigentes do ponto de vista da exploração. São depósitos que permaneceram por décadas sem desenvolvimento justamente por esse grau de complexidade.

A experiência da Ligga mostra que, havendo condições adequadas do ponto de vista técnico, ambiental e regulatório, essas jazidas podem ser exploradas de forma responsável e economicamente viável. Embora sejam projetos menores individualmente, o somatório de várias iniciativas de pequeno e médio porte pode gerar um impacto equivalente ao de um novo grande projeto de mineração. Nesse sentido, a Ligga ajudou a abrir uma porta. Ao demonstrar que é possível desenvolver projetos em jazidas consideradas complexas, cria-se um efeito indutor para que outras empresas se interessem pela região, viabilizando novos empreendimentos, gerando empregos, renda e promovendo desenvolvimento econômico e social de forma sustentável.

Legado pessoal e profissional

Quando penso em legado, ele está menos no que construí materialmente e mais no que procurei transmitir às pessoas com quem trabalhei ao longo da carreira. A principal mensagem é a da perseverança. Nada é simples, e a trajetória profissional é feita de desafios constantes.

Acredito que o bom profissional é aquele que continua se preparando, mesmo nos momentos difíceis. As oportunidades surgem, mas é preciso estar pronto para elas. Muitas vezes, as pessoas se desanimam diante das primeiras dificuldades, quando, na verdade, a oportunidade pode estar próxima — e o diferencial está em estar preparado quando ela aparece. Por isso, vejo como fundamental a atualização constante, o estudo contínuo e a atenção ao que acontece ao redor.

Ao mesmo tempo, à medida que surgem oportunidades maiores, cresce também a responsabilidade. Estar em um cargo de liderança não é um direito ou um privilégio, mas um dever. Um dever com as equipes, com os profissionais que trabalham ao seu lado e com as famílias que dependem dessas decisões. Cada novo nível alcançado exige mais consciência, mais compromisso e mais cuidado com as pessoas.

Para mim, entender que crescimento profissional significa assumir responsabilidades cada vez maiores é um dos elementos centrais para definir o caráter de um profissional — e esse é, talvez, o legado mais importante que se pode deixar.

Mensagem final

A Ligga nasce com vocação sustentável e de longo prazo, com o compromisso de se consolidar como referência em mineração moderna. Nosso projeto é orientado por inovação, eficiência operacional e responsabilidade, buscando permanentemente novas tecnologias e métodos de extração que aumentem a produtividade e reduzam custos — algo essencial em um setor que trabalha com commodities e, no nosso caso, com jazidas mais complexas e desafiadoras.

Ao mesmo tempo, entendemos que nenhum projeto se sustenta sem as pessoas. Por isso, valorizamos de forma central a mão de obra, nossos profissionais e trabalhadores, que são parte fundamental do sucesso da Ligga. Nosso compromisso é construir um projeto sólido, competitivo e responsável, capaz de gerar valor econômico, social e ambiental de forma consistente e duradoura.

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