A reportagem recentemente publicada pelo CKS Online sobre o Projeto Luanga, em Curionópolis, no Sudeste do Pará, teve grande repercussão entre leitores, profissionais da mineração e pesquisadores da história de Carajás.
Após a publicação, o portal recebeu diversos contatos com perguntas recorrentes: como surgiu o nome Luanga? Quando ocorreu a descoberta? E, principalmente, quem foi o responsável por identificar a ocorrência mineral que hoje volta ao centro das atenções?
A matéria original pode ser conferida aqui: Projeto Luanga prevê início das operações para 2027 e coloca Curionópolis (PA) na rota global dos metais estratégicos.
Para responder a essas questões, o CKS Online foi ouvir quem viveu os fatos no campo e foi o responsável direto pela descoberta. O entrevistado é Carlos Augusto Medeiros Filho, o Cacá, geoquímico aposentado, hoje residente em Natal (RN), mas ainda atuante como consultor. Reconhecido nacionalmente, ele é um dos profissionais mais respeitados da geologia brasileira e participou diretamente de descobertas fundamentais do Projeto Grande Carajás, nas décadas de 1970 e 1980.
1983: o ano da descoberta
À época da descoberta do Luanga, Cacá trabalhava para a DOCEGEO (Docegeo – Rio Doce Geologia e Mineração), empresa de pesquisa geológica que era subsidiária da então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) — hoje Vale. A DOCEGEO era responsável por identificar, mapear e avaliar novas ocorrências minerais em Carajás, atividade conhecida tecnicamente como prospecção e pesquisa mineral, etapa anterior à mineração propriamente dita.
Os trabalhos estavam inseridos em um projeto criado para investigar áreas no entorno de Serra Pelada, em meio a um cenário de intensa atividade mineral, forte pressão garimpeira e rápida expansão da fronteira deexploração — um contexto que marcaria profundamente a dinâmica social e econômica da região.
A coordenação geral das pesquisas estava sobresponsabilidade do geólogo Evaldo Meireilles (in memoriam). Cacá, que na época tinha 28 anos, atuava como geólogo de campo, função que envolve trabalho direto na floresta, com abertura de picadas, observação das rochas expostas naturalmente (os chamados afloramentos), coleta de amostras e registro técnico detalhado —tudo isso em condições extremamente adversas.
A identificação do cromitito e dos platinóides
Foi durante esses trabalhos de mapeamento geológico atividade que consiste em identificar e registrar os tipos de rochas e estruturas presentes em uma área que ocorreu a descoberta que mudaria o rumo do projeto.

Em campo, Cacá identificou uma rocha diferente das demais encontradas na região. “Foi em maio de 1983, no mapeamento, que eu identifiquei aquela rocha, o cromitito, e também as rochas associadas a ela”, relata.
Para o leitor não técnico, o cromitito é uma rocha rica em cromita, um minério essencial para a produção de ligas metálicas, especialmente o aço inoxidável. Associados a esse tipo de rocha, podem ocorrer os chamados elementos do grupo da platina, conhecidos como platinóides,que incluem metais raros e de alto valor econômico, como platina, paládio e ródio.

As amostras foram coletadas e enviadas para análises laboratoriais e mineralógicas, processo que permite confirmar exatamente quais minerais estão presentes na rocha. Os resultados confirmaram a presença de cromitita associada a platinóides. Com essa confirmação, o projeto deixou de ter caráter apenas regional e passou, especificamente no alvo Luanga, a assumir um foco técnico mais detalhado e direcionado.
O nascimento do Projeto Especial Luanga
A partir da descoberta, foi criado um projeto especial, voltado exclusivamente à avaliação dessa nova ocorrência mineral. Internamente, ele ficou conhecido pela sigla PE 36, destinado à delimitação, caracterização e avaliação do potencial econômico do depósito de cromita eplatinóides.
Cacá assumiu a função de coordenador de campo, responsável pela execução das atividades em área, enquanto a chefia geral permaneceu com Evaldo Meirelles. Foram instalados acampamentos, intensificados os trabalhos de detalhe e iniciados os preparativos para futuras sondagens, técnica usada para investigar o subsolo em profundidade.

Luanga: a origem do nome do projeto
O nome Luanga, que hoje identifica o projeto, nasceu de forma simples, prática e diretamente ligada à rotina do trabalho de campo como era comum nos levantamentos geológicos realizados na Amazônia naquele período.
O acampamento foi implantado a cerca de 15 quilômetros de Serra Pelada, na margem de um igarapé que apresentava bom volume de água limpa e quase sempre fria, condição essencial para a sobrevivência das equipes em campo.

Segundo Cacá, o nome do igarapé Luanga surgiu durante trabalhos anteriores de amostragem de sedimentos de corrente, técnica que consiste em coletar material dos leitos dos rios para identificar indícios de minerais.
Naquele período, a grande maioria dos igarapés da região não possuía denominação oficial, regional ou popular. Para fins de controle técnico, era obrigatório nomear esses cursos d’água nos relatórios. Essa tarefa cabia ao chefe do levantamento e da amostragem geralmente um técnico demineração. Não se sabe ao certo quem, especificamente, atribuiu o nome Luanga.
De forma mais técnica, a explicação é simples: tratou-se de uma denominação funcional, adotada para atender às exigências dos relatórios de campo e que acabou se consolidando nos registros internos da DOCEGEO.
Mas, ao relembrar o episódio, Cacá também recorre ao bom humor. “Pode ter sido um erro de digitação, e o nome original fosse ‘Luanda’, em homenagem à capital de Angola”, comenta.
“Ou, menos provavelmente”, brinca, “uma homenagem a São Carlos Lwanga”.
São Carlos Lwanga e os 22 mártires de Uganda foram beatificados em 1920 pelo Papa Bento XV — uma referência que, embora curiosa, nunca foi oficialmente confirmada. O fato é que o nome acabou se fixando nos registros técnicos, passou a identificar o igarapé Luanga, o acampamento Luanga e, posteriormente, o próprio projeto mineral.
As dificuldades do campo: isolamento, chuvas e riscos
Trabalhar no Luanga estava longe de ser simples. O acesso era difícil e a logística dependia fortemente das condições climáticas. No período chuvoso, os caminhos se transformavam em lamaçais; no verão amazônico, o calor intenso e a poeira castigavam equipes e equipamentos.
As chuvas vinham acompanhadas de tempestades fortes eventanias, muitas vezes durante a noite. Árvores balançavam violentamente, galhos caíam e o isolamento tornava qualquer emergência um grande desafio, já que o apoio externo podia levar dias para chegar.
A ameaça dos garimpeiros e a retirada apressada
Em 1985, o avanço das pesquisas no Luanga foi interrompido por um episódio crítico: ameaças de invasão por garimpeiros, em um contexto de forte tensão social herdado da explosão do garimpo de Serra Pelada. O episódio teve grande repercussão e foi pauta do jornal O Liberal – de Belém, capital do Pará – que acompanhava de perto os conflitos relacionados à mineração no Sudeste do estado.

“Recebemos ameaça de invasão. Por segurança, o projeto foi suspenso e tivemos que sair da área de forma até um pouco apressada”, relembra Cacá.
Com a retirada das equipes, a ocorrência deixou de ser prioridade naquele momento e só voltaria a ser estudada com maior intensidade muitos anos depois. Posteriormente, o projeto foi adquirido pela Bravo Mining e é controlado por brasileiros. A operação está prevista para iniciar em 2027.
Um legado que atravessa décadas
Décadas após a descoberta, com o Luanga novamente em evidência, essa história ganha novo significado. Ao resgatar essa trajetória, o CKS Online contribui para preservar a memória de quem esteve no campo, enfrentando isolamento, clima extremo e riscos reais, quando Carajás ainda estava sendo desvendada.
Carlos Augusto Medeiros Filho não apenas participou dessa história — foi ele quem identificou a ocorrência mineral que deu origem ao Projeto Luanga. “A mineração em Carajás foi construída no campo, passo a passo, por muitas pessoas”, resume.

E algumas dessas histórias, como a do Luanga, merecem ser contadas com precisão, respeito e memória.
Relatos desse acontecimento geológico / prospectivo foram descritos em algumas crônicas amazônicas por Cacá Medeiros, como: LUANGA – Crônica Amazônica e O Segundo Acampamento, Uma Nova Mineralização e As Pedras Folhasa.
Redação CKS online












Uma resposta
Amei a história. Emocionante!
Eu não sabia desses detalhes tão interessantes.
Parabéns pela belíssima redação.