Chuvas normais: Dados contradizem justificativa da Vale para extravasamentos em minas

De acordo com o Jornal O Estado de Minas, a medição foi realizada em uma estação localizada em Ouro Preto, a poucos quilômetros das unidades operacionais atingidas

Dados oficiais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), analisados pelo Jornal O Estado de Minas, contestam a justificativa da Vale sobre os extravasamentos ocorridos nas minas de Viga e Fábrica. Enquanto a mineradora atribuiu os incidentes ao “alto volume de chuva” na Região Central de Minas Gerais, os registros apontam uma precipitação de 93,5 milímetros entre os dias 22 e 25 de janeiro de 2026, volume considerado normal para o período.

De acordo com o Jornal O Estado de Minas, a medição foi realizada em uma estação localizada em Ouro Preto, a poucos quilômetros das unidades operacionais atingidas. Especialistas ouvidos pela reportagem, como o meteorologista Lizandro Gemiacki, do Inmet, reforçam que acúmulos de 90 milímetros em quatro dias são recorrentes nos meses de novembro a janeiro, não representando uma anomalia climática que justificasse falhas estruturais.

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O vice-presidente técnico da Vale, Rafael Bittar, defendeu que o plano de contingência para chuvas não foi suficiente para absorver a água acumulada, alegando que a precipitação ocorreu de forma concentrada. Contudo, o levantamento do Jornal O Estado de Minas mostra que, nos dias imediatamente anteriores aos extravasamentos, o volume registrado foi de apenas 33 milímetros, o que enfraquece a tese de uma sobrecarga hídrica repentina e excepcional.

Em contrapartida, especialistas como o professor Carlos Wagner, do Cefet-MG, destacam que episódios de 100 milímetros em curto intervalo são frequentes devido à influência da Zona de Convergência do Atlântico Sul. Para fins de comparação, o Jornal O Estado de Minas ressaltou que, em dezembro de 2025, a mesma região registrou volumes semelhantes (86,2 mm) em quatro dias, sem que problemas da mesma magnitude fossem reportados nas operações da mineradora.

Em posicionamento oficial enviado ao Jornal O Estado de Minas, a Vale informou que as causas dos dois extravasamentos estão sendo apuradas e que os aprendizados serão incorporados aos processos internos. A companhia ressaltou que utiliza estações meteorológicas próprias em suas áreas de operação, além de dados da Agência Nacional de Águas (ANA), argumentando que as condições climáticas podem variar significativamente dentro de uma mesma região.

Apesar da normalidade dos eventos específicos nos dias dos incidentes, o acumulado total de janeiro de 2026 foi superior aos anos anteriores. Conforme apurado pelo Jornal O Estado de Minas, a estação de Santo Antônio do Leite registrou 466 milímetros no mês, uma alta de 51% em relação a 2025. A Vale reitera que o monitoramento local permite uma avaliação mais precisa das condições meteorológicas do que as estações regionais externas.

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