De acordo com informações da Folha de São Paulo, mineradoras com projetos avançados em Goiás, como a Serra Verde e a Aclara, firmaram contratos de financiamento com o banco estatal americano DFC. Esses acordos estratégicos podem garantir aos Estados Unidos uma vantagem competitiva no acesso à produção mineral brasileira, mesmo sem um tratado formal entre os governos de ambos os países. A movimentação reflete a urgência global em torno das terras raras, um conjunto de 17 elementos químicos que são fundamentais para a fabricação de ímãs de alta potência, componentes cruciais para tecnologias de defesa e para a transição energética, incluindo motores de carros elétricos.
O cenário internacional é marcado pela forte dependência da China, que atualmente domina 60% da extração e 90% do refino desses minerais. Nesse contexto, o Brasil se destaca por possuir uma das maiores reservas de terras raras do mundo, ocupando a terceira posição global, atrás apenas de China e Vietnã. No entanto, a Folha de S.Paulo ressalta que os investimentos diretos do governo americano em mineradoras locais podem reduzir o poder de barganha do Estado brasileiro em negociações futuras, já que parte da produção pode estar antecipadamente comprometida com o mercado norte-americano.
A mineradora Serra Verde, única em operação no Brasil, recebeu um aporte de US$ 465 milhões do DFC para ampliar sua unidade no norte de Goiás. Embora a empresa tenha evitado detalhar cláusulas contratuais à Folha de S.Paulo, especialistas indicam que o financiamento do banco estatal dos EUA geralmente exige que uma parcela do minério seja direcionada ao país investidor. Recentemente, a empresa ajustou contratos com clientes chineses para abrir espaço ao fornecimento para o Ocidente, visando diversificar seus compradores até 2027.
Outro braço dessa estratégia envolve a mineradora Aclara, que também recebeu recursos do DFC e planeja construir, até 2028, uma refinaria nos próprios Estados Unidos para processar o concentrado extraído em solo brasileiro. Conforme reportado pela Folha de S.Paulo, essa decisão vai de encontro aos interesses do governo brasileiro, que busca agregar valor à matéria-prima dentro do país. O refino é a etapa mais tecnológica e rentável da cadeia, sendo essencial para transformar o minério bruto nos óxidos utilizados pela indústria de alta tecnologia.
Enquanto as empresas avançam em acordos bilaterais com o capital americano, o diálogo entre os governos de Brasil e EUA sobre minerais críticos permanece sem um desfecho formal. O governo brasileiro sinaliza que a industrialização local das terras raras é uma condição prioritária para qualquer pacto oficial. A Folha de S.Paulo aponta que acordos semelhantes aos firmados pelos EUA com a Austrália, que envolvem bilhões de dólares em investimentos no processamento local, servem de modelo para o que o Brasil almeja alcançar.
Por fim, a transição para a administração de Donald Trump nos EUA mantém o interesse em assegurar o acesso prioritário às reservas brasileiras. Segundo fontes ouvidas pela Folha de S.Paulo, o governo americano busca garantir direitos de preferência na compra de minerais estratégicos. Mesmo sem um tratado “governo a governo”, a abertura do setor de mineração brasileiro ao capital estrangeiro permite que os EUA sigam consolidando sua influência sobre esses recursos vitais, essenciais para reduzir a hegemonia chinesa no setor tecnológico global.











