Mineração e gratidão: A saga de Florêncio, o homem que viu Carajás (PA) nascer e se fez gigante com ela

Florêncio de Sousa é um dos pioneiros da Província Mineral de Carajás, que não apenas trabalhou e ainda trabalha na região, mas ajudou a construir a alma da maior província mineral do planeta, enquanto construía também a própria história.

No coração da Amazônia, onde o vermelho do minério encontra o verde infinito da Floresta Nacional de Carajás, em Parauapebas (PA), as histórias de homens e máquinas costumam se fundir. Mas poucas trajetórias são tão simbólicas quanto a de Florêncio de Sousa. Neste mês de janeiro de 2026, enquanto o Projeto Mineral de Carajás – o maior do mundo – ainda celebra seus recentes 40 anos, Florêncio também comemora sua própria “boda de esmeralda” com a mineração: quatro décadas de uma vida que prova que o minério não é a única riqueza extraída da terra, extrai-se sonhos e constroem-se realidades.

O início duro e os sonhos silenciosos

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A jornada de Florêncio começou longe da imponência dos caminhões fora de estrada. Natural de Codó, no Maranhão, ele conheceu a dureza da vida antes mesmo de aprender a andar: ficou órfão de pai com apenas 33 dias de vida. Criado apenas pela mãe, que se desdobrou para criar 10 filhos, ele trouxe do Maranhão não apenas o sonho de uma vida melhor, mas a resiliência de quem aprendeu cedo que o trabalho é o único caminho.

Ele pisou no Pará pela primeira vez em 1982, atraído pelo brilho da corrida do ouro. Dois anos depois, em 1984, subiu a serra de Carajás para nunca mais descer. O início foi bruto, como o minério bruto que ele via passar. Durante 25 dias, sua rotina era lavar veículos sob a chuva incessante e a lama da Amazônia. “Depois fui para a oficina, para polir carros e, posteriormente, trabalhar na mecânica de veículos”, relembra.

Naquela época, Florêncio não tinha diplomas — tinha apenas a terceira série do primário e uma fé inabalável de que Deus guardava algo maior para ele. Cada dificuldade enfrentada parecia reforçar sua vontade de seguir em frente.

A Vale como virada de destino

O destino mudou em 1986. Em meio ao processo de primarização – internalização de atividades anteriormente terceirizadas – da então estatal Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), Florêncio viu a oportunidade de sua vida em um concurso. “Foi uma grande conquista, um avanço significativo na minha vida pessoal e profissional”, avalia ele, sobre o momento em que o rapaz que polia carros e fazia serviços de mecânica simples passou a integrar o quadro de uma grande mineradora.

A partir dali, a mineração deixou de ser apenas um emprego para se tornar sua escola de vida. De mecânico a operador, Florêncio dominou as máquinas gigantes.

Amor por cartas e a fé como alicerce

Em meio à rotina intensa da mineração, Florêncio viveu também uma história de amor rara. Em 1986, começou a namorar Elenilza Moura de Sousa, aquela que se tornaria sua esposa. Casaram-se em 1987. “Ela foi minha primeira namorada, e eu fui o primeiro namorado dela”, conta com emoção.

O relacionamento cresceu em um tempo sem celulares ou mensagens instantâneas. A comunicação era feita por cartas, escritas à mão, enviadas pelos Correios, carregadas de saudade e expectativa. Paralelamente, a fé se fortalecia. Em 1986, Florêncio se converteu a uma religião e passou a conduzir sua vida sustentado por princípios espirituais. “Corpo, alma e espírito precisam ser alimentados”, afirma.

Pai de quatro filhos, ele tem orgulho da família que formou ao longo dos anos. “É minha base, meu maior patrimônio”. Hoje, ele assiste com orgulho à continuidade de seu legado: um de seus filhos, formado em Administração, trabalha no Bioparque Carajás, na gestão da Casa de Hóspedes.

Para Florêncio, ver a evolução de sua família no mesmo solo onde ele lavou caminhões é a maior prova de que a mineração, quando feita com propósito, transforma gerações. “É muito gratificante ver a continuidade da nossa história aqui”, enfatiza com a sensação de missão cumprida.

O Mestre da Operação

A carreira de Florêncio é marcada pela disposição constante em aprender. Atuou como mecânico e operador, em áreas de operação e treinamento. O início na mecânica de equipamentos pesados foi um dos maiores desafios, justamente pela falta de experiência. Já os anos na Centralizada – oficina de máquinas da Vale – foram de intenso crescimento e aprendizado.

Em 2012, viveu um dos momentos mais marcantes de sua vida: a experiência internacional na Vale Moçambique. “Ali eu refiz meus conceitos de vida”, revela. Dois anos depois, em 2014, ingressou na área de treinamento, onde encontrou um novo propósito. “Ensinar e aprender ao mesmo tempo não tem preço”, analisa.

Atualmente, aos 60 anos e prestes a se aposentar, Florêncio não apenas opera; ele ensina. Atuando como Instrutor de Operação de Mina, ele é o guardião do conhecimento, transmitindo para os mais jovens a sabedoria que não se encontra em manuais técnicos.

Como instrutor, Florêncio ajudou a formar centenas de profissionais. Para ele, ensinar “é como plantar uma árvore, vê-la crescer e dar frutos, não tem preço isso”. Ao citar ex-alunos que hoje ocupam posições de liderança, como supervisores, a emoção é visível.

Ele acredita que o treinamento é a base da segurança e do futuro da mineração. “Segurança não se faz poupança. A vida precisa estar sempre em primeiro lugar”, afirma, com a convicção de quem viveu cada etapa desse processo.

Carajás, lugar de pertencimento

Depois de tantos anos, Carajás deixou de ser apenas um local de trabalho. Tornou-se lar. “Carajás é um desejo de muitos e um privilégio para poucos”, analisa. Ao longo de quatro décadas, Florêncio testemunhou transformações profundas na região e na mineração, especialmente impulsionadas pela tecnologia.

Completar 40 anos na mineração é, para Florêncio, uma dádiva. Ao olhar para trás, ele se define com palavras simples, mas profundas: gratidão, crescimento e fé. “Sou a prova viva de que a mineração transforma vidas.”

Aos jovens que iniciam agora sua trajetória, deixa um conselho: “Sejam protagonistas da própria história e busquem conhecimento, pois esse é um patrimônio que ninguém pode tirar”. À família, o agradecimento é eterno.

Florêncio de Sousa é um dos pioneiros da Província Mineral de Carajás, que não apenas trabalhou e ainda trabalha na região, mas ajudou a construir a alma da maior província mineral do planeta, enquanto construía também a própria história.

Redação CKS Online

Respostas de 10

  1. Grandes conquistas durante toda a trajetória na empresa vale, parabéns.

  2. Seu Florêncio, fiquei profundamente emocionada ao ler a sua história . É inspirador ver a sua dedicação e a sua trajetória na Vale ao longo de 40 anos. A sua fé inabalável e o amor pela família são verdadeiramente admiráveis. É uma honra ter sido sua aluna e agora ser colega na mesma área. Sua trajetória é um exemplo de compromisso e inspiração para todos nós. Parabéns e muito obrigada por compartilhar sua jornada!”

  3. Florêncio, parabéns pela linda caminhada de trabalho e fé. Que Deus continue abençoando a sua família.

  4. Grande Florêncio!! Referência como pessoa e profissional!!! Tenho enorme prazer em ter trabalhado com o mesmo na província mineral de Carajas!!! Histórias que ficam no mundo!!!

  5. Que história linda, parabéns meu querido amigo Florêncio, ou para os íntimos “ O turma “ kkk, tenho muito orgulho hoje de poder trabalhar ao lado do senhor, e cada oportunidade de aprendizado.

    Você é uma inspiração para mim.

  6. Parabéns pela brilhante reportagem…!!!

    1. Prazer imenso ter trabalhado com essa pessoa formidável…grande profissional!!!

  7. Sr. Florêncio, 40 anos de empresa não são apenas um número — é uma história inteira escrita com caráter, dedicação e lealdade. São quatro décadas de trabalho honesto, de desafios enfrentados com coragem, de conquistas construídas dia após dia, muitas vezes em silêncio, mas sempre com grandeza.

    Poucos conseguem permanecer, crescer e deixar marcas tão positivas ao longo de tanto tempo. O senhor não apenas fez parte dessa empresa: ajudou a construí-la, a fortalecê-la e a dar sentido aos valores que ela representa. Seu exemplo inspira, sua trajetória ensina e seu legado permanece.

    Que esse reconhecimento seja apenas um reflexo do respeito e da admiração que todos têm pelo senhor. Que venham novos capítulos, novas vitórias e, acima de tudo, a certeza de que sua caminhada valeu — e continua valendo — muito a pena.

    Parabéns por esses 40 anos de história, compromisso e excelência. O senhor é motivo de orgulho!

  8. Grande Florêncio! cabra bom e alinhado!! muita experiência,

  9. Parabéns meu nobre Florêncio, pela brilhante jornada!!

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