Pará é o segundo estado com mais conflitos de mineração no Brasil, aponta relatório da UFF

Levantamento da Universidade Federal Fluminense revela que o estado concentra quase 18% das ocorrências nacionais; pesquisador destaca impactos na Ferrovia Carajás e áreas portuárias.

Foto: Amazônia.inesc

O Pará consolidou-se em 2024 como um dos principais palcos de tensões minerais no Brasil. É o que revela o novo Relatório de Conflitos de Mineração, divulgado este mês pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo o levantamento, o estado ocupa a segunda posição nacional em número de ocorrências e em total de pessoas atingidas, ficando atrás apenas de Minas Gerais (MG).

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Em todo o país, a média é alarmante: 2,4 conflitos registrados por dia. No Pará, a concentração de 17,8% das ocorrências nacionais evidencia que a pujança econômica do setor caminha lado a lado com graves desafios sociais e de direitos humanos.

Carajás sob os holofotes

Diferente de outros anos, o relatório aponta uma “ampliação espacial” dos problemas. Para o coordenador da pesquisa, o geógrafo Luiz Jardim Wanderley, a presença de gigantes como a Vale no território paraense cria uma complexa rede de tensões que vai além da extração.

“A Vale, além dos conflitos em Minas Gerais, possui inúmeras plantas no Pará, na Ferrovia Carajás e nas áreas de porto. Isso se mostra muito presente porque elas têm uma capilaridade muito grande no território”, destacou o pesquisador.

Dos 975 conflitos mapeados no Brasil, a Vale S.A. e sua subsidiária Samarco lideram o ranking de violações, com 96 casos cada. No Pará, outras empresas com forte atuação regional também figuram na lista, como a Hydro (36 casos) e a Belo Sun Mining (20 casos).

Violência e reação no campo

O relatório detalha um cenário de violência extrema em 2024. Foram registradas 32 mortes de trabalhadores em embates e 19 ameaças de morte em todo o país. Além disso, o documento lista:

  • 101 invasões de terra;
  • 58 intimidações de trabalhadores;
  • 14 expulsões e 13 casos de assédio.

O Pará também se destacou pela resistência: o estado foi o segundo com maior número de “reações diretas” às violações, com 16 casos registrados, demonstrando a mobilização das comunidades locais frente aos impactos da atividade mineral.

Contradição

O estudo levanta uma crítica severa ao discurso de sustentabilidade das mineradoras. “É surpreendente como essas empresas dizem que são socialmente e ambientalmente preocupadas, mas são as que têm o maior número de conflitos.  Isso mostra primeiro, uma contradição das empresas. Apesar de dizerem que cumprem políticas sociais e ambientais rigorosas, produzem uma enormidade de conflitos e impacto nas comunidades””, pontua Luiz Jardim.

O outro lado

Em nota, a Vale afirmou que possui o compromisso de gerir riscos e impactos, buscando um relacionamento “respeitoso e construtivo” com as comunidades. A mineradora destacou que mantém canais de diálogo abertos, como telefone e WhatsApp, e incentiva o engajamento das populações locais nas decisões. Sobre Brumadinho, a empresa reforçou que já executou 81% do acordo de reparação.

A Samarco também se manifestou, informando que assumiu a responsabilidade direta pela reparação dos danos em Mariana e que adota o Padrão Global da Indústria sobre Gestão de Rejeitos, garantindo a estabilidade de suas estruturas.

Já a CSN Mineração criticou a metodologia do relatório, afirmando que não teve acesso prévio aos dados e que a compilação de diferentes segmentos (siderurgia, logística e energia) pode distorcer os resultados. A empresa reiterou que atua em conformidade com a legislação ambiental e trabalhista.

Para a Região de Carajás, os dados da UFF reforçam a necessidade de um olhar mais atento das autoridades para além dos royalties.

Redação CKS Online com informações da Agência Brasil

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