“Pará é um dos protagonistas na nova fase da mineração brasileira”, afirma Cláudio Lyra, durante a EXPOSIBRAM

Profissional com passagem por Carajás e consultor experiente, Claudio Lyra fala ao CKS Online, que acompanha in loco o evento, sobre os novos desafios da mineração nacional e o papel estratégico do Brasil e do Pará

Entrevista do consultor em mineração ao diretor comercial do CKS, Wagner Santos, na EXPOSIBRAM

O Congresso Brasileiro da Mineração – EXPOSIBRAM 2025 (Salvador- BA, 27 a 30 de Outubro de 2025) tem sido palco de discussões fundamentais sobre o futuro da mineração. Em meio a debates sobre inovação, sustentabilidade, governança e desafios, o CKS Online conversou com Cláudio Lyra, profissional da área socioambiental, sustentabilidade, licenciamentos, relações institucionais e com comunidades e de gestão de projetos de mineração, e que atualmente atua como consultor.

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Com passagens em diversos projetos de mineração como Carajás, Serra Pelada, Corumbá, Volta Grande do Xingu / Altamira, Ipiaú, Capitão Gervásio Oliveira, entre outros, além de centros de referência em gestão da atividade de mineração como Rio de janeiro e Belo Horizonte, Lyra desenvolveu parte da sua jornada profissional no Pará, onde desenvolveu a sua vivência técnica e humana. Ao longo da carreira, coordenou diversos estudos ambientais e processos complexos de licenciamento, além de representar empresas junto a comunidades, órgãos públicos e instituições nacionais.

Nesta entrevista, ele fala sobre os novos desafios da mineração brasileira, o papel do Pará nas novas perspectivas globais do setor e as tendências que devem guiar o caminho da indústria mineral nos próximos anos.

CKS Online – Cláudio, você tem uma trajetória marcante na área socioambiental e de sustentabilidade, além de uma forte ligação com Carajás e região. Como essa vivência no Pará moldou sua visão sobre o papel da mineração responsável no Brasil?

Claudio Lyra:  primeiramente, o fato de ter vivenciado o Projeto Carajás, nos anos 90, contribuiu fortemente para o meu desenvolvimento profissional e na construção de uma visão de que projetos de mineração, quando implantados com uma visão de futuro, sustentabilidade e de desenvolvimento regional, muito podem contribuir como alavancador da criação de oportunidades, rendas e de riquezas, no seu entorno. Este processo, iniciado nos anos de 80, vem se aprimorando e hoje, Parauapebas e Canaã dos Carajás (entre outros na região), são reconhecidos como municípios (mineradores) com indicadores de desenvolvimento social e de qualidade de vida e de crescimento, acima da média nacional. Muito se caminhou e muitos são ainda os desafios pela frente, de todos os envolvidos (empresas e partes interessadas) de aprimoramento das relações com o território e com os atores e comunidades locais, em pró do crescimento sustentável, ordenado e socialmente justo.

CKS Online – Olhando para trás, o que mais te marcou nos primeiros anos de trabalho em Carajás, especialmente na relação entre empresa, comunidade e meio ambiente?

Claudio Lyra: ao chegar em Carajás, que era um local de acesso remoto na época , a grandiosidade do projeto de mineração e de suas estruturas, muito contratavam com as características da região no qual estava inserido. Há de se ressaltar o contexto da época, do conceito de desenvolvimento sustentável que norteou a implantação (“DNA”) do Projeto Carajás (década de 1980), a evolução das instituições, legislações vigentes, práticas, da empresa e das suas relações com as comunidades e atores, que proporcionaram o desenvolvimento da região, com a redução das diferenças. Conforme comentado anteriormente, ao se chegar hoje na região, as diferenças qualitativas e quantitativas são bastante visíveis. 

CKS Online – Ao longo da sua carreira, você esteve a oportunidade de conviver com diferentes contextos e realidades .Que aprendizados você considera mais aplicáveis à realidade da mineração brasileira, especialmente na Amazônia?

Claudio Lyra: A sustentabilidade (econômica, ambiental, etc.), a competitividade e produtividade, a responsabilidade social não são conceitos opostos e sim complementares e devem andar juntos. Quando considerados em uma atividade empresarial (e não somente na mineração) são capazes de promover o desenvolvimento, o sucesso e a aceitação social do empreendimento (imagem / legitimidade ), a criação de oportunidades e justiça social. Na Amazônia, em especial pelas suas características sociais (em especial, as diferenças socioeconômicas) a adoção destes conceitos tornam-se, na minha opinião, ainda mais importantes, no combate das diferenças e como indutor de desenvolvimento e de oportunidades para a população local; 

CKS Online – O Pará é hoje se destaca na atividade de mineração no Brasil. Na sua avaliação, qual é o papel do Estado, nas novas perspectivas da atividade mineral? 

Claudio Lyra: Na minha visão, o Estado, nas suas três esferas (Federal, Estadual e Municipal) deveria atuar basicamente como regulamentador (legislação), fiscalizador (atendimento dos requisitos legais vigentes) e facilitador (incentivador) das atividades empresariais, no qual se inclui o da mineração. Este papel, com a eliminação de burocracias e a redução de prazos de implantação de empreendimentos (por exemplo, de licenciamentos ambientais e autorizações) teria como consequência direta e imediata, o incremento de competitividade do setor, com reflexos em ganhos para os empreendimentos (gerador de empregos, impostos e oportunidades) e sociedade. No caso do Pará, principal estado minerador (junto com Minas Gerais) do País e considerando-se a riqueza de recursos minerais do Pará, certamente estes resultados seriam potencializados, com ganhos significativos para todos. 

CKS Online – Quando falamos em “mineração do futuro”, o Pará aparece como referência em inovação e sustentabilidade. Que avanços e desafios o senhor enxerga para consolidar essa liderança?

Claudio Lyra: As características geológicas do estado do Pará, o colocam em uma posição privilegiada com relação à produção mineral (nacional e internacional). Outros atributos como localização / logística, energia, cultura da mineração já existente, disponibilidade de mão de obra especializada, atratividade, etc., reforçam a sua vantagem competitiva. Porém, há de se considerar as característica ecológicas, principalmente da região de florestas e recursos hídricos, na implantação e exploração de empreendimentos minerais, onde os conceitos de sustentabilidade e de responsabilidade ambiental devem (necessariamente) estar presentes. Também, a adoção de inovação, de processos industriais de menor impacto, de alternativas de produção, são imprescindíveis para o sucesso, competitividade e perpetuação da atividade.

CKS Online – A transição energética e a busca por minerais críticos colocam o Pará em posição estratégica. Como o senhor vê essa nova corrida por minerais como níquel, cobre e lítio na Amazônia?

Claudio Lyra: A transição energética (mudança de fontes de energia) e a procura por minerais críticos (recursos minerais para tecnologias estratégicas) é a nova tônica do mercado consumidor internacional e esta demanda necessita ser aproveitada / desenvolvida, para o atendimento ao mercado crescente. A riqueza de recursos minerais do Pará, com várias reservas destes minerais, o colocam em vantagem competitiva natural, assim como acontece com outros minerais tradicionalmente explotados na Pará (ênfase para o minério de ferro, manganês, ouro, etc.). As características, expertise, vivência e vocação do Pará, no que diz respeito ao setor mineral, aliado aos requisitos de sustentabilidade, inovação, responsabilidade social, contribuirão fortemente para o estabelecimento de uma base produtiva, de atendimento à demanda internacional, com o fortalecimento do setor / atividade e ganhos econômicos e sociais.

CKS Online – O setor mineral enfrenta hoje uma pressão crescente por sustentabilidade e governança. Quais são, na sua visão, os principais desafios socioambientais para as mineradoras se manterem competitivas?

Claudio Lyra: O atendimento aos requisitos ESG (Environmental; Social; Governance) dos objetivos da ONU – Organização das Nações Unidas é hoje, no âmbito ambiental, social e de governança (gestão), um item “obrigatório” para a competitividade, aceitação e de perpetuação de qualquer negócio, não somente do setor de mineração. Portanto, as empresas devem se preparar, aprimorar (melhorias contínuas) e comprovar (rastreabilidades) o atendimento a estes requisitos, como um fator de sucesso e de aceitação (“licença social” para operar / legitimidade) do negócio. Portanto, atualmente, não basta somente o atendimento aos requisitos regulatórios (obrigatórios) das fases de implantação, operação e fechamento de empreendimentos, sendo necessário e imperativo o envolvimento com a questão de sustentabilidade, social e de gestão do próprio negócio. Como principais desafios, de forma resumida, destaco a construção de relações sólidas e duradoras entre a empresa, territórios e comunidades, com diálogo e comunicação clara e acessível, transparência / coerência, relações de parceria, responsabilidade, escuta ativa e visão de longo prazo, gerando valor e confiança para todas as partes interessadas envolvidas (comunidades, poder público, sociedade organizada, investidores, etc.);

CKS Online – O você tem uma longa experiência na gestão de licenciamentos e mediação de conflitos. O que mudou nesse campo e como as empresas podem aprimorar o diálogo com comunidades e órgãos públicos?

Cláudio Lyra:  como toda a ciência, a social, vem também se desenvolvendo bastante  nas últimas décadas. No passado (década de 80) a gestão social era baseada na intuição e na sensibilidade dos gestores / equipe para o tema, que ainda não assumia a importância atual, sem muito conhecimento / suporte analítico do território e comunidades, também pela falta (inexistência) de ferramentas, procedimentos, cultura e de informações (por exemplo, bases de dados públicos). Atualmente, a gestão social se baseia no conhecimento analítico e no processamento de (diversas) informações (organização e integração de dados), provenientes da coleta (continua)/ retroalimentação / monitorização, na identificação de padrões / correlações, com a utilização de ferramentas avançadas (por exemplo, de Inteligência Artificial / Social) na análise de consideráveis volumes de informações e dados diversos, com a geração informações para o subsídio das ações de  Responsabilidade Social Corporativa, como fator de desenvolvimento e de eficiência social.

CKS Online – Termos abrangidos no ESG,  estão cada vez mais presentes na mineração. Como o senhor enxerga a aplicação real desses conceitos no dia a dia das operações?

Cláudio Lyra:  Conforme já citado, a questão ambiental, social e de governança (gestão), assumem cada vez mais, importância similar aos indicadores de produção e de eficiência operacional, em razão da geração de valor, reputação, perpetuidade do negócio, confiança, etc., para as todas as partes interessadas (comunidades, poder público, sociedade organizada, investidores, etc.). Estes atributos deixaram de ser uma decisão voluntária / estratégia ou de simples market / comunicação (“imagem”), para se firmar como um indicador de eficiência, coerência, transparência, respeito, justiça social, reputação, etc. (verdadeira imagem).

CKS Online – A EXPOSIBRAM 2025 tem mostrado uma forte presença de empresas comprometidas com inovação e sustentabilidade. Na sua leitura, o que essa edição da feira revela sobre o momento atual da mineração brasileira? 

Claudio Lyra: a EXPOSIBRAM é mais um (importante) fórum de reunião e discussão, com a presença dos grandes (players) atores do setor e reflete o momento de grande transformações por que passa o a mineração no Brasil, cada vez mais preocupada e aderente aos temas de meio ambiente e sustentabilidade, responsabilidade social e de governança, para a qual a inovação, tecnologia, conhecimento e mudança de postura (evolução / aprendizagem / nova cultura) com relação a décadas atrás, tem se mostrado como caminho para a solução / minimização ;de seus impactos negativos e potencialização dos positivos, com o aprimoramentos de sua operação e de relacionamentos / parcerias, com resultados positivos para a sua imagem, aceitação, perpetuação do negócio, pela geração de valor e confiança (em construção).

CKS Online – Que temas ou tecnologias apresentados na feira o senhor considera mais promissores para o futuro da mineração no Brasil e no Pará?

Claudio Lyra: acredito que o aprimoramento / fortalecimento das questões em andamento relativas a meio ambiente, social e de governança, sem a perda da eficiência operacional e de competitividade, produtividade e produção (razão da existência das empresas), seja a grande contribuição desta EXPOSIBRAM, com a troca de experiências, análise de cases de sucesso e de aprendizados.

CKS Online – Para encerrar, qual mensagem o senhor deixaria aos jovens profissionais e estudantes que estão começando suas carreiras e veem na mineração uma oportunidade de crescimento e transformação?

Cláudio Lyra: deixo a mensagem de evolução e aprimoramento constante do setor, que oferece múltiplas oportunidades, conhecimentos e bons relacionamentos. O setor passa atualmente por grande transformação, o que potencializa essas oportunidades, a geração de valor e de conhecimentos, apresentando-se como uma excelente alternativa de futuro para os novos profissionais (de várias áreas) e estudantes.

Por CKS Online / Foto: Wagner Santos — Cobertura especial Exposibram 2025 | Salvador (BA)

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