Vale encerra 2025 com lucros recordes, mas acidentes em Carajás (PA) colocam segurança do trabalho em xeque

“Toda vez que você aumenta a produção, surge um nível maior de cobrança, e essa cobrança normalmente vem acompanhada da pressa. Pressa é um dos principais fatores contribuintes para acidentes", afirma o especialista em segurança do trabalho Diógenes Valle.

A Vale, maior mineradora do Brasil e uma das maiores do mundo, encerra 2025 celebrando números robustos. A empresa avançou em produção, reduziu custos operacionais e ampliou sua capacidade de geração de caixa, criando espaço para maiores dividendos aos acionistas. Os dados reforçam a relevância estratégica da mineradora para a economia nacional e, especialmente, para a Província Mineral de Carajás, no sudeste do Pará — um dos maiores polos de mineração do planeta.

No entanto, em meio aos resultados positivos, um alerta ganha força: a segurança do trabalho precisa acompanhar o mesmo ritmo de crescimento. Nos últimos meses, três acidentes graves foram registrados nas operações da região, sendo dois com vítimas fatais, fatos noticiados pelo CKS Online e que reacendeu o debate sobre prevenção, jornadas de trabalho e cultura de segurança.

Continua depois da publicidade

Relembre aqui os acidentes:

Alerta de segurança na Vale: em menos de uma semana, Carajás tem morte de trabalhador e colisão de caminhão

Em nota, Vale lamenta morte de trabalhador e informa sobre suporte à família e apuração

Tragédia na Operação Gelado: Vale confirma morte de trabalhador contratado em acidente de trabalho

A proposta desta reportagem não é confrontar números, mas conscientizar. Ouvir trabalhadores, especialistas e a própria empresa é essencial para que o crescimento econômico caminhe lado a lado com a preservação da vida.

Números em alta: produção, custos e geração de caixa

De acordo com dados divulgados pelo mercado, a Vale registrou avanço na produção de minério de ferro, ao mesmo tempo em que conseguiu reduzir seus custos operacionais, especialmente o C1, indicador que mede o custo direto da produção por tonelada, incluindo extração, processamento e transporte interno.

Outro indicador de destaque é o EBITDA — sigla em inglês para Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, ou, em português, Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização. Esse índice mostra a capacidade real de geração de caixa da empresa com suas atividades principais, sem considerar despesas financeiras ou efeitos contábeis. Na prática, quanto maior o EBITDA, maior a eficiência operacional e a capacidade de investimento da companhia.

Com esses resultados, a Vale amplia sua margem financeira, fortalece o caixa e abre espaço para distribuição de dividendos, reforçando sua posição no mercado global de mineração.

Crescimento com atenção redobrada à segurança

Para o especialista em segurança do trabalho Diógenes Valle, profissional com mais de 30 anos de experiência, com passagens por grandes empresas como Vale, Alcoa e Gerdau, o cenário de aumento de produção combinado com redução de custos exige atenção máxima.

“Toda vez que você aumenta a produção, surge um nível maior de cobrança, e essa cobrança normalmente vem acompanhada da pressa. Pressa é um dos principais fatores contribuintes para acidentes. Quando isso se soma à redução de custos, o risco aumenta ainda mais, porque muitas vezes se posterga investimento em prevenção”, explica.

Diógenes ValleEspecialista em segurança do trabalho

Segundo ele, a redução de custos pode gerar um sentimento de complacência, quando riscos conhecidos deixam de ser tratados de imediato.

“Produção gera pressa. Redução de custos pode gerar complacência. Uma coisa potencializa a outra. É um cenário que precisa ser muito bem gerenciado.”

Norma não evita acidente sozinha, alerta especialista

Diógenes Valle também chama atenção para a diferença entre cumprir normas e ter uma cultura de segurança consolidada.

“As Normas Regulamentadoras existem há quase 50 anos. Se norma evitasse acidente sozinha, eles já não existiriam. Cumprir norma é o básico, porque é lei. Mas o que realmente evita acidente é a cultura de segurança, e quem define essa cultura é a liderança.”

Ele destaca que mudanças na alta gestão podem impactar diretamente essa cultura ao longo do tempo, reforçando a necessidade de um compromisso permanente com a segurança.

Sindicato aponta jornada extensa e terceirização como fatores de risco

Representando os trabalhadores, o Sindicato Metabase, um dos maiores e mais representativos sindicatos da mineração no Brasil, foi ouvido pela reportagem por meio de seu presidente, Raimundo Nonato Alves Amorim, conhecido como Macarrão.

Segundo ele, apesar dos avanços tecnológicos e investimentos em segurança feitos pela empresa, a realidade atual preocupa.

“Com toda a tecnologia, enclausuramento de fontes de ruído e melhorias que foram feitas, ainda há muito a avançar. Não tem como falar em bem-estar do trabalhador com jornadas de 12 horas, somadas a longos deslocamentos.”

Raimundo Nonato Alves Amorim, Macarrão – Presidente do Sindicato Metabase

Macarrão relata que muitos trabalhadores saem de casa por volta das 3h da madrugada e só retornam às 9h ou 10h da noite, permanecendo até 14 horas fora de casa.

“O trabalhador vai cansado, estressado, sonolento. Isso aumenta muito o risco de acidentes, principalmente para quem opera máquinas pesadas”.

Terceirização e rotatividade também preocupam

Outro ponto levantado pelo sindicato é a situação dos trabalhadores terceirizados.

“O trabalhador da Vale consegue absorver melhor a política de saúde e segurança, porque permanece mais tempo. Já nas empreiteiras, a rotatividade é muito grande, e o trabalhador não consegue absorver o programa de segurança por completo.”

Além disso, questões sociais como moradia precária, dificuldade de descanso e falta de infraestrutura adequada impactam diretamente o desempenho e a segurança desses profissionais.

Redução da jornada como caminho, diz sindicato

Na visão do Metabase, a redução da jornada é fundamental para reverter o cenário.

“Desde que a jornada passou de oito para 12 horas, o número de acidentes vem crescendo. Defendemos a volta para oito horas ou, em turnos ininterruptos, jornadas de seis horas, para garantir descanso, convivência familiar e mais segurança.”

Posicionamento da Vale

O CKS Online também ouviu a Vale sobre os acidentes recentes, as medidas adotadas para prevenção, a política de jornada de trabalho e os investimentos em saúde e segurança nas operações da Província Mineral de Carajás.

Em nota, a mineradora lamentou os acidentes ocorridos, se solidarizou com as famílias e afirmou que “investigações rigorosas estão em andamento”, acompanhadas da adoção de medidas para prevenção de ocorrências dessa natureza.

Referente a situação de trabalhadores terceirizados, a empresa ressaltou que realiza treinamentos obrigatórios para todos os empregados, tanto os próprios quanto terceiros e para toda a liderança. “Além disso, a Vale investe no cuidado com o bem-estar físico e emocional das pessoas, bem como em inovação e tecnologia, visando eliminar ou reduzir a exposição ao risco, modernizando seus processos e estabelecendo regras rigorosas voltadas à prevenção de acidentes”.

Ainda de acordo com o comunicado, a mineradora ressaltou que busca garantir que as metas de produtividade estejam sempre alinhadas às normas de segurança, preservando a integridade dos profissionais. “A Vale reforça também que mantém diálogo regular com o sindicato da categoria e órgãos de fiscalização, definindo suas diretrizes de trabalho sempre com base em estudos de especialistas que conhecem o ambiente Vale e os riscos inerentes à sua atividade, buscando assegurar condições adequadas de trabalho e inspirando-se nas melhores práticas de mercado.

Confira a nota da Vale na íntegra:

A vida das pessoas está em primeiro lugar na Vale. Esse princípio orienta todas as decisões da companhia, que reafirma que a segurança é sua prioridade absoluta. A empresa lamenta profundamente os acidentes ocorridos e a fatalidade citada, solidarizando-se com as famílias e assegurando que investigações rigorosas estão em andamento, acompanhadas da devida adoção de medidas efetivas para a prevenção de ocorrências dessa natureza, conforme seu compromisso com práticas seguras e responsáveis.

O compromisso da vida em primeiro lugar se materializa em treinamentos obrigatórios para todos os empregados próprios ou terceiros (que totalizam cerca de 50 mil no Estado), e para toda a liderança, desde a entrada na empresa e durante toda a permanência nas operações. Além disso, a Vale investe no cuidado com o bem-estar físico e emocional das pessoas, bem como em inovação e tecnologia, visando eliminar ou reduzir a exposição ao risco, modernizando seus processos e estabelecendo regras rigorosas voltadas à prevenção de acidentes. Soma-se a esses esforços o intenso trabalho de fortalecimento da cultura de prevenção e da análise de riscos, valores disseminados no dia a dia da companhia.

A alta liderança tem papel central na política de segurança da companhia e atua de perto para garantir que as metas de produtividade estejam sempre alinhadas às normas de segurança, preservando a integridade dos profissionais. Essa premissa é um valor inegociável e um compromisso permanente em todas as áreas. Além disso, a empresa mantém diálogo diário, inspeções frequentes e fiscalização constante, assegurando ainda que cada trabalhador tenha o direito de recusar atividades caso considere que não há condições adequadas de execução.

A Vale reforça também que mantém diálogo regular com o sindicato da categoria e órgãos de fiscalização, definindo suas diretrizes de trabalho sempre com base em estudos de especialistas que conhecem o ambiente Vale e os riscos inerentes à sua atividade, buscando assegurar condições adequadas de trabalho e inspirando-se nas melhores práticas de mercado.

A Vale acredita em uma jornada contínua de segurança operacional e não mede esforços para ser uma organização livre de acidentes, preservando a integridade física e emocional de seus trabalhadores, como fruto de um ecossistema em que a segurança e a saúde das pessoas estão presentes desde a concepção de um projeto até a execução das tarefas, das mais simples às mais complexas.

Segurança como valor permanente

Pela relevância econômica, social e histórica da Vale na Província Mineral de Carajás e no país, o debate sobre segurança do trabalho precisa estar sempre no centro das decisões. O crescimento da produção e os resultados financeiros expressivos devem caminhar lado a lado com investimentos contínuos em prevenção, bem-estar e valorização da vida.

O CKS Online acredita que, ao ouvir trabalhadores, especialistas e a própria empresa, é possível fortalecer uma cultura de segurança cada vez mais sólida, capaz de garantir que cada profissional saia de casa e retorne em segurança, todos os dias, para junto de sua família.

Redação CKS Online

Posts relacionados