Ícone da música paraense, Warilou encerrou a noite no Festival
O que não falta ao público da VII edição do Festival Buffalo’s Gourmet é sede de conhecimento. Logo nas primeiras horas do dia, houve um bate-papo muito interessante com Clodoaldo Souza e Bruno Benitez, que já havia feito um show incrível na noite anterior, sobre a musicalidade na Amazônia. A mediação foi da jornalista Hanny Amoras.

A conversa destacou os avanços na divulgação da música amazônica dentro e fora da região, do país e do mundo. Com isso, começam a surgir resultados na participação de artistas em alguns festivais. Ainda assim, esse processo é fruto da resistência e da insistência de músicos e consumidores da cultura amazônica no Brasil e em outros países. A chamada síndrome do “vira-lata” ainda faz parte do nosso dia a dia.
Bruno Benitez ressaltou que os avanços ainda acontecem de forma lenta.
“Recentemente tivemos a ausência de artistas amazônicos no Rock in Rio, daí vieram as reações e fizeram o Amazônia Live para autoridades e convidados durante a COP30, uma programação absolutamente fora da realidade e que ainda prejudicou o espaço da floresta com o abandono da estrutura no rio por várias semanas. Este ano, o Rock in Rio volta a abrir um dos palcos para nossa cultura, para nossos músicos”, destacou.
A conversa também percorreu a história de artistas paraenses, desde a década de 1920 até os dias atuais, abordando as mudanças nos antigos festivais e o apagamento de muitas manifestações culturais.
O mestre de carimbó Clodoaldo Souza destacou a importância de transmitir a cultura para as crianças, contando histórias, deixando legado e conhecimento para evitar o esquecimento. No contexto atual, a ampliação de políticas de incentivo cultural, incluindo diversos editais, contribui bastante.
“A gente vem aprendendo muito com os processos, com as vivências, e é isso que a gente tem o compromisso de passar para as crianças. No palco do Buffalo’s, eu vi crianças e jovens, como a minha filha, que já veio dançando lá do Marajó, dançando junto com o Raízes Parauara. A gente tem que contar e recontar a nossa história. A história da Amazônia e do Pará é uma história de ancestralidade e, mesmo que não estejamos aqui, a nossa memória volta, volta e conta a história.”
Essa história hoje também é vivenciada por Rarranda Karan, aluna do ensino médio da escola Crescendo na Prática, na Palmares 2. Ela veio do Piauí em 2021, reencontrou o avô, que havia migrado para Parauapebas, e hoje fica muito feliz quando ocorrem eventos em que o carimbó é o protagonista.
“Aqui é muito diferente da minha escola no Piauí. Aos 11 anos, eu fui conhecendo as comidas daqui, as danças e fui me apaixonando pelo carimbó, cultura e arte. Na minha escola, a gente tem muitas atividades educacionais voltadas para esses temas. A gente trabalha com a horta que meu avô deu a ideia de fazer, que é uma horta em formato de mandala. Para mim, foi uma experiência muito boa plantar e colher”, disse.
Ela completou, ressaltando que a música sempre está presente e que, em novembro, nas comemorações do Dia da Consciência Negra, haverá apresentações de carimbó. “Nós vamos fazer um espetáculo que vai trazer a maquiagem, o tecido da roupa, o cenário e, com certeza, vai ser muito lindo”, celebra a estudante.

“Não tem como você segurar águas nas mãos; elas transbordam em depoimentos como este. E, este ano, teremos, pela primeira vez, o Dia e a Semana Municipal da Vivência do Carimbó, em setembro, um evento que já acontece há mais de 10 anos. Eu usei o exemplo do Buffalo’s para a criação da lei. O Buffalo’s Gourmet, para mim, é muito importante e cresce todos os anos. Eu me sinto representado não só pelo festival, mas pelos outros eventos da Associação Búfalo de Ferro. Nós não precisamos de nada mirabolante para poder nos agigantar; o que precisamos é de um Buffalo’s”, revelou Clodoaldo Souza.
“Festivais como este, a gente tem em alguns lugares, são oásis no sentido de agregar diferentes culturas, diferentes movimentos. Parte da gastronomia, que também é a cultura alimentar, é ancestral, e aqui eles estão com uma inovação muito grande em cima da questão dos produtos oriundos do búfalo, agregando também a cultura. Não é só colocar a cultura de qualquer forma. A gente está aqui representando essa cultura latino-amazônica, mas a gente tinha o carimbó representando a sua ancestralidade aqui do Pará e, nos outros dias, a gente também tem outros leques sendo abertos para a música mais globalizada. A gente tem o blues, o rock. É um festival que vem justamente para atrair diferentes tipos de público. Tem a gastronomia, mas ele vai se transbordando de cultura, chegando à música e a vários outros horizontes, não é isso? Que venha a crescer. Eu estou muito feliz de estar aqui, quero ver esse festival cada vez maior e, se possível, a gente quer estar aqui em outras edições no futuro!”, comemorou Benitez.
Meio Ambiente e Gastronomia
Na sequência da programação, o espaço foi aberto para o tema “Meio Ambiente e Gastronomia”, com o biólogo Cesar Sá, da Vale, e a professora Veruska Gomes, da Ufra. Foi, de fato, uma aula sobre abelhas e seus benefícios para a vida no planeta. As pequenas iniciativas de universidades, como a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), e de empresas, como a Vale, ajudam a ampliar o conhecimento e a conscientização sobre a importância desses animais.
“Para mim, também é um compromisso pessoal, e a Ufra trabalha com algumas áreas relacionadas à criação de abelhas no município, com a produção de mel e outros produtos oriundos da apicultura (criação de abelhas com ferrão) e da meliponicultura (com abelhas nativas sem ferrão). Tudo isso perpassa pelo conhecimento, entender que ela está presente em determinado ecossistema e que eu não posso, por exemplo, retirar uma abelha lá do Rio Grande do Norte e trazer para cá, porque, dessa vez, ela pode ser foco de alguma doença à qual as abelhas daqui não estão acostumadas ou adaptadas. Também, quando houver uma nova reprodução, não haverá abelhas dessa natureza para que essa colônia consiga se reproduzir.”
Veruska Gomes ressaltou que essa prática é um crime ambiental e causa inúmeros prejuízos para o meio ambiente como um todo.
Dentro do Festival Buffalo’s Gourmet, a universidade é parceira do evento e traz, todos os anos, estudantes que apresentam os trabalhos que estão sendo realizados pela instituição, não só por meio da pesquisa, mas também de projetos de extensão. Uma das linhas de pesquisa é a caracterização da produção de alimentos com as abelhas.
“É tentar entender o que é que tem naquele mel, ou seja, quais são os recursos, quais são as flores que as abelhas buscam, porque o mel não é só açúcar. Ele tem diversos compostos bioativos, substâncias bactericidas. As abelhas podem buscar recursos de várias coisas e nós estamos identificando essas espécies para que, no futuro — um sonho meu —, possamos pensar em produtos típicos da região de Carajás”, prevê a professora.
Em Parauapebas, a Ufra também acompanha a relação entre a produção de cacau e todos os produtos do mel em apiários na região do Cedere, em parceria com a Associação Filhas do Mel. Em breve, bons frutos desse trabalho devem surgir.
É claro que existem muitos desafios para quem cumpre a legislação e trabalha protegendo o meio ambiente. Campanhas de conscientização são permanentes e têm resultados mais lentos. Veruska destaca que ainda estamos engatinhando na percepção da importância das abelhas para os ecossistemas e que os apicultores ainda precisam enfrentar prejuízos, por exemplo, com a propagação, pelo vento, de pesticidas que acabam com colônias inteiras.
Cesar Sá, biólogo da mineradora Vale, compartilhou o conceito de “Capital Natural” e explicou como a empresa vem contribuindo com pesquisas e levantamentos de dados. “Capital Natural é uma forma de a gente mensurar, medir os serviços que a natureza promove para a gente. É um conjunto de serviços ecossistêmicos. Ele é importante porque a gente consegue dar valores para tênis, capacete, roupa, para o mercado financeiro, porque isso tudo tem um valor. Mas, para a natureza, a forma de a gente defender os serviços da natureza é também passar a buscar formas de valorar esse serviço que a natureza promove para a gente. Porque só valorando é que vai incentivar a comunidade, a população, as pessoas a preservar a natureza e os serviços ecossistêmicos.”
Ele contou que recentemente foi realizado um trabalho, já publicado, sobre o Capital Natural da Floresta Nacional de Carajás e os serviços ecossistêmicos que ela promove. “Os resultados são interessantíssimos e chocantes. Por exemplo, o serviço da polinização, serviços que as abelhas nativas, as abelhas indígenas, as meliponínias fazem para a gente. Este estudo mostra que, quando a gente faz levantamento de aptidões agrícolas do território, produção de cacau, do açaí e a importância das abelhas nesse sistema, no sistema da polinização e da formação dos frutos. Então, quando a gente retira a abelha desse sistema, as abelhas que fazem essa polinização, a gente consegue mensurar que o serviço dela vale em torno de 4,5 milhões de dólares por ano. Então, agricultores de cacau, de açaí, de tomate, comecem a depositar aí na conta das abelhas esse valor”, ressaltou Cesar.
Cozinha Show e Warilou completam programação variada do dia
Para além das mesas de discussão, a valorização da história e da identidade paraense tomou conta do evento com a marcante presença da banda Warilou. O público celebrou a apresentação do grupo com entusiasmo, definindo o show como uma verdadeira “loucura” e destacando a banda como um patrimônio histórico e cultural da música paraense. A noite ainda teve o desfile “Preciosidades da Amazônia”, valorizando biojoias produzidas na região.

A Cozinha Show também foi um dos grandes destaques do festival, reunindo pratos com ingredientes típicos da Amazônia. O Chef Márcio Gomes expressou sua emoção em participar do evento e preparar iguarias regionais: “Hoje a gente fez uma iguaria do Estado do Pará, da Amazônia. A gente usou uma especiaria maravilhosa nossa, nós usamos as ervas que a gente tem, a gente usou o pirarucu, cara”.
As criações culinárias foram enriquecidas por insumos de búfala e produtos regionais. “Usamos o turu… usamos o tucupi, que é o nosso bambambã, usamos o nosso jambu, usamos a nossa chicória, usamos a nossa alfavaca… e a gente usou só o queijo e o creme de leite do Búfalo Gourmet”, complementou o Chef Márcio.
A competição gastronômica revelou novos talentos e receitas exclusivas desenvolvidas para o concurso. A cozinheira Thaís Soares de Miranda, finalista da edição, explicou sua criação: “Eu desenvolvi esse prato pensando no critério do concurso… pensei em fazer um croquete… com a massa de abóbora cabotiá, com recheio de carne assada de panela desfiada, acompanhada de geleia de cupuaçu apimentada”.
A feira atraiu um público expressivo que aproveitou o espaço para matar a saudade dos sabores nortistas. O visitante Igor Planzo elogiou o nível dos pratos apresentados: “Búfalo Gourmet, um festival que fala muito da minha terra, eu sou de Belém. Então, aqui em Parauapebas tô matando a saudade da cozinha de Belém… a mão dos nossos chefes é diferenciada”.
A inovação técnica também ganhou espaço nas apresentações culinárias da feira. O participante Nelson Werneck apresentou uma combinação inusitada para a Cozinha Show: “Eu resolvi implementar, fazer um prato com café e cerveja… usando o café passado na hora e uma cerveja artesanal fresquinha… com um café de microlote”.
O caráter pedagógico e a troca de experiências foram destacados por estudantes que prestigiaram a programação. A acadêmica Suellen Reis refletiu sobre o papel da gastronomia: “A gente também vendo no curso de Nutrição, a questão do alimento ser cultura, né?… A alimentação, ela é uma cultura, exatamente como ela falou aqui. E no nosso estado, ainda mais”.

Com apresentações culturais, aprendizado e alta gastronomia, o festival encerrou o dia em tom de celebração. O sentimento geral do público e dos organizadores foi sintetizado no entusiasmo da plateia no show da icônica banda Warilou.
A programação será encerrada neste domingo, com Cozinha Show, a final do concurso de chefs, e show musical de AQNO.
Serviço:
O VII Buffalo’s Gourmet – que ocorre de 13 a 16 de agosto – é apresentado pelo Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura e da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, e tem Patrocínio Master da Vale. Conta também com o patrocínio do Hiper Senna e com apoio da Prefeitura de Parauapebas. A realização é da Associação Búfalos de Ferro (ABF), da Fundação Cultural do Estado do Pará (FUNCAP) — por intermédio da Lei Semear — e do Governo do Pará. Mais informações pelo site associacaobufalosdeferro.org ou pelo WhatsApp (94) 98807-9364 com Amanda Ste. Acompanhe as novidades pelo Instagram: @buffalosgourmet.








