A chamada de vídeo de Canaã dos Carajás para Belém começa em silêncio. Do outro lado da tela, o olhar sereno de Luiz Miguel Galvão Queiroz revela que aquela conversa não seria apenas mais uma entrevista. Seria um mergulho em um tempo em que a Amazônia ainda era um território de mistérios, desafios e descobertas que mudariam os rumos da mineração brasileira.
Nascido em 23 de setembro de 1959, no pequeno bairro de Canudos, na periferia de Belém, habitado pela classe operária, Luiz Miguel cresceu em uma família simples, ao lado de mais cinco irmãos. Seu pai, que era músico, precisou mudar de profissão para sustentar a família e passou a trabalhar como pedreiro, enquanto sua mãe, professora, oriundos de Marapanim/Pa, também atuava como lavadeira para complementar a renda.
Luiz Miguel cresceu em um Brasil marcado por uma severa crise econômica, onde o emprego era escasso e o futuro parecia incerto para muitos jovens.
— “Eu era curioso… queria trabalhar, queria ter uma profissão.”
Em 1977, ingressou na Escola Técnica Federal do Pará, na capital paraense, dando um passo decisivo rumo ao futuro.

Luiz Miguel na escola Técnica em Belém
De segunda a sexta-feira, caminhava cerca de 04 quilômetros por dia para estudar — uma rotina marcada por esforço e determinação. Três anos depois, em 1980, formou-se técnico em mineração, conquistando o resultado de muita disciplina.
Na mesma época, chegou a iniciar o curso de Geografia, mas precisou interromper os estudos diante das dificuldades econômicas que atingiam o país.
— “A crise era muito grande. Não dava pra esperar muito tempo. Quando apareceu a oportunidade de trabalhar na DOCEGEO, eu aceitei.”
A empresaDOCEGEO– Rio Doce Geologia e Mineração S.A.,citada por ele,era responsável pelas pesquisas minerais da então CVRD – Companhia Vale do Rio Doce — hoje conhecida como Vale.
Naquele período, a DOCEGEO era chefiada pelo renomado geólogo Breno Augusto dos Santos, uma das figuras mais importantes da história mineral brasileira.
O VOO PARA O CORAÇÃO DA PROVÍNCIA MINERAL
Em 1981, aos 20 anos de idade, Luiz Miguel embarcou em um avião da TABA – Transporte Aéreos da Bacia Amazônica com destino ao sudeste do Pará.
O pouso era um acampamento isolado no meio da floresta, conhecido pelos técnicos como AOC-9 — Amazônia Operação de Campo, na clareira denominadade N1 (Norte 1), na Serra dos Carajás.

Casa de Hóspedes de N1 – Parte de cima, da esquerda pra direita: Jaci, Miguel, Luciomar, Kazumi, desconhecido, Amaral, Cacá, Sebastião, Regina (estagiária). Fila de baixo, da esquerda pra direita: desconhecido, desconhecido, Cantão, Jorge Resende, Carvalho, Henrique, Fernando Maia
O acampamento N1 era conduzido pelo geólogo descendente japonês Walter Hirata, lembrado com enorme carinho por Miguel.
— “O Hirata era mais do que chefe… era um paizão pra gente.”
Ao lembrar daquele primeiro voo, ele retorna ao impacto visual daquele momento.
— “Quando o avião começou a descer, eu vi aquelas serras enormes… e o nevoeiro era muito forte. Tinha hora que a gente não via nada. Aquilo foi o que mais me impressionou.”
Era o primeiro contato em 02 de outubro de 1981 com a grandiosidade da Província Mineral de Carajás.
DO N1 AO RIO PARAUAPEBAS — O INÍCIO DE UM MOMENTO HISTÓRICO
Meses após sua chegada ao acampamento N1, veio a nova missão de campo.
Era hora de seguir rumo à região onde seriam realizadas as pesquisas que levariam à descoberta do Projeto Sossego, na área denominada Granja.
— “Nós saímos do N1 pela estrada de terra que era continuidade da PA-275.” Hoje Estrada Raymundo Mascarenhas que da acesso a Carajás.
A equipe seguiu viagem até um ponto estratégico e histórico.
O raio de pesquisa abrangia desde a jazida de Manganês do Azul, até às margens do Rio Parauapebas, situado entre dois marcos que hoje são facilmente identificáveis:
o atual aeroporto de Carajás —e a portaria de acesso a mineradoraVale — que naquela época era conhecida simplesmente como Corrente.
— “Foi ali, próximo à Corrente, no Rio Parauapebas, que nós decidimos adentrar para alcançar as nascentes das drenagens, para evitar as escarpas das serras, repletas de cachoeiras.”

Parauapebas próximo da Portaria da Vale
Aquele foi um dos momentos mais marcantes de toda a jornada — o ponto exato onde começaria uma travessia capaz de mudar o destino de todos que estavam ali.
— “Foi dali que subimos as encostas das serras até alcançar as nascentes, a pé e com mochila nas costas. E começamos a subir os igarapés, denominando-os com nomes regionais e/ou personagens de lendas amazônicas.”
Daquele instante em diante, iniciava-se não apenas uma viagem pelos rios da região, mas um caminho que entraria para a história.
QUARENTA DIAS SUBINDO IGARAPÉS RUMO AO DESCONHECIDO
Mais de 20 homens adentraram na floresta, com mudança de acampamento a cada dez quilômetros, cujo acesso sempre foi às margens dos rios e igarapés.
Começava ali uma jornada que duraria cerca de 40 dias, subindo sucessivos igarapés dentro da floresta fechada.
— “A gente percorreu a pé muitos igarapés… era uma viagem longa, difícil.”
Era um ambiente isolado, silencioso e desafiador.
Até que, após semanas de sucessivas mudanças de acampamento, um encontro inesperado mudou o rumo da expedição.
O ENCONTRO COM O IGARAPÉ SOSSEGO
Após semanas subindo igarapés, a equipe encontrou uma pequena família vivendo às margens de um igarapé afluente do Rio Parauapebas.
Pai.
Mãe.
E uma criança.
Esse encontro ficou gravado na memória de Luiz Miguel.
— “O menino chamou muito minha atenção… era bem branquinho, cabelo bem lourinho… parecia um alemão.”
A equipe precisava de informações para se localizar.
Perguntaram ao pai da família:
Qual era o nome daquele igarapé?
A resposta foi direta.
— “Ele disse que aquele igarapé era conhecido por eles como Igarapé Sossego.”
Luiz Miguel recorda com emoção.
Miguel sorri.
— “E não era à toa… Era um lugar bonito, muito tranquilo. Água limpa, floresta densa… um silêncio profundo, quebrado só pelo canto dos pássaros — o canto alegre do Uirapuru que emudece a mata, e o canto triste do Aracuã, uma cena que a gente nunca esquece. Um verdadeiro sossego.”
Ali começava oficialmente a subida pelo Igarapé Sossego — cenário onde, mais tarde, seriam realizadas as coletas geológicas que levariam à descoberta de um importante prospecto mineral, que passaria a carregar o nome daquele Igarapé: Projeto Sossego.
Operado pela Vale em Canaã dos Carajás, o Projeto Sossego é uma importante mina de cobre e foi a primeira exploração mineral da companhia fora do negócio de minério de ferro.
1982: A DESCOBERTA FEITA POR UMA EQUIPE
Ao falar sobre a descoberta da Mina do Sossego, Luiz Miguel faz questão de dividir o mérito.
— “A Mina Sossego não foi descoberta por uma pessoa só… foi descoberta por uma equipe unida. Nós éramos uma verdadeira família.”
Ele começa a citar os principais nomes de quem ajudou a descobrir o Sossego.
Edmundo Leal e Elias Sassim — técnicos em mineração, que faziam troca de escala com Miguel.
Reinaldo Gonzalez — geólogo.
João Carlos Rigon — geólogo.
Antônio Amaral — geólogo, conhecido como Velho Barreiro.
Negrão — enfermeiro, responsável pela saúde do grupo.
Antônio José — cozinheiro, conhecido como Vampiro.
E ele próprio.
Luiz Miguel – Trick-Trick.
— “Ele sorri ao relembrar: Esse apelido foi o meu grande amigo Messias que me deu… por causa do jeito próprio que eu ando,fruto da poliomielite na infância. Era uma brincadeira carinhosa.”
AS CARTAS QUE NÃO DAVAM SOSSEGO
A vida no acampamento no Sossego era marcada por um isolamento absoluto. Não havia telefone nem qualquer forma de comunicação direta com as famílias. O único contato com o mundo exterior vinha por meio das cartas.
Elas eram entregues pelos familiares no escritório da Docegeo, em Belém, seguiam de avião até o N1 e, de lá, eram levadas de helicóptero até o acampamento — muitas vezes levando até 30 dias para chegar.
Luiz Miguel lembra bem o que tirava o sossego e da ansiedade que tomava conta do grupo quando o helicóptero se aproximava.
— “Quando a gente escutava o barulho do helicóptero, já sabia que vinha carta. Era uma alegria danada.”
Mas havia um detalhe que tornava aquele momento ainda mais delicado: a maioria dos auxiliares de campo não sabiam ler nem escrever.
Foi assim que Luiz Miguel passou a ajudar os colegas — e, ao longo do tempo, leu e escreveu centenas de cartas.
— “Eles chegavam acanhados, com vergonha, e me chamavam pra um canto pra eu ler ou escrever as cartas.”
Entre tantas mensagens, uma delas ficou marcada para sempre em sua memória.
— “Teve uma vez que eu fui ler uma carta pra um colega e vi que a esposa dele estava pedindo divórcio.”
Naquele momento, Miguel sabia que precisava ter muito cuidado com as palavras.
— “Eu disse pra ele: ‘Olha, lá não está muito bem… mas não se preocupe, não é problema de saúde. Quando você chegar em casa, sua esposa pessoalmente vai explicar.’”
— “A gente vivia muito isolado. Uma notícia dessa, lida como estava, podia deixar a pessoa desesperada… podia até atentar contra a própria vida ou contra a vida de um colega.”
Foi nesse ambiente tenso e distante de tudo que algo começou a nascer dentro dele.
Ao perceber que muitos colegas não sabiam ler nem escrever, Luiz Miguel começou a ensinar pequenas coisas — conhecimento dos números e contas simples de matemática para ajudar na marcaçãode dados da topografiae nas pesquisas geológicas.
— “Teve um tempo que eu comecei a ensinar alguns trabalhadores braçaisa fazer contas de matemática. Aí eu pensei até em fazer uma escolinha ali no meio da floresta, pra ensinar os companheiros que não sabiam ler e escrever. Era uma forma de ajudar e também de passar o tempo.”
A ideia não chegou a se concretizar naquele momento, mas o sentimento ficou guardado.
Anos depois, aquele gesto simples se transformaria em destino.
O ISOLAMENTO QUE MEXIA COM A MENTE
Após semanas dentro da floresta, o isolamento começava a afetar alguns homens.
Um episódio ficou marcado.
O cozinheiro Antônio José — o Vampiro — após quase 90 dias no mato, começou a ter visões.
— “Ele dizia que tinha visto uma mulher na beira da água… a mãe-d’água uma figura do folclórico amazônico.”
Naquele momento, a decisão era clara.
— “Ele sorri: Era hora de mandá-lode volta para sua família pra descansar.”
Luiz Miguel ajudou o amigo a deixar o acampamento.
Era uma medida de cuidado.
De proteção.
48 HORAS ENTRE A VIDA E A MORTE
Mas o momento mais dramático da sua vida viria pouco tempo depois.
A malária, por duas ocasiões.
— “Eu achei que ia morrer.”
Ele descreve aquele episódio como uma das experiências mais difíceis que enfrentou na sua vida no Sossego.
Foram 48 horas de sofrimento intenso, marcadas por:
Calafrios fortes.
Febre alta.
Fraqueza extrema.
O medo era ainda maior porque, naquele mesmo ano, um colega de profissão havia morrido vítima da mesma doença.
— “Eu lembrava dele… e pensava que podia acontecer comigo.”
Até que um som rompeu o silêncio da floresta.
O barulho do helicóptero.

— “Quando eu ouvi aquele barulho… foi um alívio muito grande.”
Era o socorro chegando.
Era a vida voltando.
Refeita a saúde, atuou na qualificação de pessoas, na década de 1990, como facilitador da Gestão Pela Qualidade Total – GQT, na Docegeo, e a docência aflorou e desabrochou.
O RETORNO, A EDUCAÇÃO E O REENCONTRO COM A HISTÓRIA
Em 1997, logo após a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, chegava ao fim um ciclo importante na vida de Luiz Miguel.
Depois de 17 anos dedicados à mineração, ele se despedia das atividades em Carajás e retornava para Belém. Durante o voo de retorno a Belém, 22 de outubro de 1997, dia do aniversário de casamento, o presente foi apreciar a floragem do Ipê Roxo e Amarelo, como se fosse um tapete desenhado por Deus na floresta. Mas, longe de encerrar uma jornada, aquele retorno marcava o início de uma nova missão.

Equipe da DOCEGEO pós-privatização
Quase imediatamente, ele voltou a estudar.
Aquele antigo desejo que nasceu ainda no meio das pesquisas do Projeto Sossego — quando ajudava colegas a ler cartas e sonhava em montar uma pequena escola — começava finalmente a ganhar forma.
Em 2002, formou-se em Pedagogia pela Universidade do Estado do Pará (UEPA).
Em 2008, concluiu o mestrado em Educação.
E, em 2012, veio o doutorado, também na área da educação.
Era a realização de um sonho que, décadas antes, havia surgido de maneira simples: ajudar colegas que não sabiam ler nem escrever no meio da floresta.
Movido pelas cartas.
Movido pela vontade de ensinar.
Movido pela solidariedade.

Luiz Miguel é professor efetivo da Universidade do Estado do Pará (UEPA)

Luiz Miguel com seus alunos na UEPA.
Em 2019, depois de muitos anos longe da região, Luiz Miguel voltou a para uma visita muito especial em Canaã dos Carajás.
Ele veio visitar o filho Rafael Queiroz, que morava na cidade com a esposa e a filha. Naquela época, o filho, advogado e também professor, lecionava em um colégio do município.
Mas o momento mais marcante daquela viagem aconteceu logo no reencontro.
Ao chegar, Luiz Miguel abraçou e beijouo filho, cumprimentou e abraçoua nora e, em seguida, tomou nos braços a pequena Maria Helena, sua netinha — que hoje tem seis anos.
Foi nesse instante que a emoção falou mais alto.
Segurando Maria Helena nos braços, um verdadeiro filme passou pela sua cabeça.
Ele voltou no tempo.
Lembrou dos dias difíceis vividos naquela mesma região, quando tudo ainda era mata fechada. Vieram à memória as longas jornadas a pé, com a mochila nas costas, coletando amostras minerais, os caminhos abertos no meio da floresta e os dias de solidão que pareciam não ter fim.
Vieram também as lembranças mais duras.
Os dias em que adoeceu de malária, quando o corpo enfraquecido quase não respondia. Recordou das noites dormindo em redes improvisadas, cercada por mosquitos e pela escuridão profunda da mata e pela distância de tudo e de todos.
E, em meio a tantas dificuldades, lembrou das cartas que lia para os colegas — palavras simples que chegavam como dor, conforto, trazendo notícias, esperança e força para continuar.
Agora, anos depois, ele estava ali — segurando a neta que nasceu em Canaã — exatamente na terra onde um dia enfrentou medo, doença e solidão.
Ao caminharanônimopor Canaã dos Carajás, Luiz Miguel se emocionou ao ver o quanto tudo havia mudado.
A terra que antes exigia coragem e resistência estava se transformado em uma cidade forte, organizada e cheia de vida e sonhos para quem chegava. E ali, próximo de onde tudo começou, estava um dos grandes marcos da mineração brasileira e símbolo da transformação daquela região a mina do Projeto Sossego.
Naquele momento, o sentimento era claro: orgulho.
Orgulho de ter participado do início de uma história que ajudou a transformar a região e criar oportunidades para milhares de pessoas.
Hoje, aos 67 anos, casado há 46 anos com sua primeira namorada, Dona Maria Amélia, Luiz Miguel segue firme em sua missão. Professor da UEPA, servidor efetivo da Secretaria de Educação do Estado e autor de mais de seis livros dedicados à educação, ele ajudou a formar mais de mil alunosem professores — cada um levando adiante um pouco do conhecimento que decidiu compartilhar ainda nos tempos em que trabalhava na mineração.

Foto atual de Luiz Miguel com a família.
Ao olhar para Canaã dos Carajás, ele não vê apenas uma cidade que cresceu.
Ele vê o resultado de 17 anos dedicados ao trabalho em equipe, às pesquisas de campo e às descobertas que ajudaram a transformar a região.
Porque, antes das máquinas, antes das estradas e antes da cidade… Houve homens que acreditaram quando tudo ainda era incerteza.
E entre eles estava Luiz Miguel.
Um homem que ajudou a revelar riquezas sob a terra — e que, ao longo da vida, ajudou a desvelar o maior tesouro de todos: o conhecimento.
Minerando Histórias é uma coluna do CKS Online que narra a trajetória de pessoas que fizeram/fazem parte da história da Província Mineral de Carajás (PA).
Texto: Wagner Santos / Fotos: Acervo pessoal de Luiz Miguel Galvão Queiroz








Respostas de 2
Que história linda e muito bem transcrita! Vim do RJ há 14 anos e ainda me emociono com leituras e histórias como essa! Parabéns ao Luiz Miguel todos desbravadores quem fazem as pesquisas se tornarem projetos grandiosos e de grande beneficio para a sociedade gerando empregos e para economia local!
É isto aí Miguel! Bela história. É muito difícil quem participou da prospecção mineral na Amazônia nas décadas de 70 e 80, não tenham passado por momentos difíceis. Valeu amigo. Parabéns.