Tragédia de Brumadinho é tema de debate em congresso de comunicação realizado em Minas Gerais

Em painel no IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas (CNCTC), autores de livro-reportagem detalham os bastidores da tragédia da Vale em Brumadinho e apontam a urgência de uma imprensa independente e integrada aos órgãos de fiscalização.

Ouro Preto (MG), berço da exploração mineral no Brasil e palco de cicatrizes seculares deixadas pelo extrativismo, foi palco de um debate sobre a responsabilidade das mineradoras, a omissão corporativa e os desafios da imprensa. Durante o encerramento do IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas (CNCTC), nesta terça-feira (4), o painel “Jornalismo Investigativo e Responsabilidade Socioambiental diante da Urgência Climática” colocou no centro das discussões a maior tragédia socioambiental e trabalhista da história do país: o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), da Vale.

Sob a mediação da procuradora-geral do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE/MG), Sara Meinberg, os jornalistas e escritores Lucas Ragazzi (Portal O Fator) e Murilo Rocha (Band Minas) apresentaram os bastidores e os desdobramentos do livro “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

A discussão foi além do resgate histórico; fez um diagnóstico sobre como a conivência institucional e as pressões corporativas moldam o cenário da mineração no Brasil e sobre o papel crucial do jornalismo para romper essa hegemonia.

Tragédia anunciada

A tragédia que matou 272 pessoas e despejou mais de 13 milhões de metros cúbicos de lama tóxica de rejeitos na bacia do rio Paraopeba, em janeiro de 2019, não foi um acidente fatalista. Tratou-se, como pontuaram os debatedores, de uma tragédia anunciada por meandros técnicos e negligências conscientes.

Durante o painel, os jornalistas detalharam como estudos geotécnicos prévios já indicavam que o Fator de Segurança (FS) da barragem da Vale — o indicador que mede a estabilidade da estrutura — operava abaixo do limite mínimo exigido pela legislação ambiental e de segurança de barragens.

Ragazzi e Rocha revelaram que tiveram acesso a trocas de e-mails de profissionais e consultores terceirizados admitindo expressamente a incapacidade de atingir os índices de segurança legais. A resposta da mineradora, contudo, seguiu a tônica da busca pelo lucro a qualquer custo: sob forte pressão corporativa, adotou-se um verdadeiro “malabarismo matemático” para forjar convenções numéricas que atestassem uma estabilidade fictícia, evitando assim a paralisação das operações do complexo minerário.

“O livro nasceu da necessidade de um trabalho de maior fôlego sobre uma grande tragédia humanitária”, explicou Murilo Rocha, ressaltando o incômodo com o vácuo investigativo deixado após o desastre de Mariana (MG), ocorrido em 2015, quando a imprensa pouco aprofundou nas engrenagens operacionais das corporações.

Hoje, os dados colhidos e organizados na reportagem investigativa ultrapassaram as bancas: “O livro tem sido usado até por advogados em ações de indenização às famílias das vítimas”, ressaltou Ragazzi.

A influência dos grandes anunciantes e o “jornalismo de nota”

Para o jornalismo especializado na cobertura do setor mineral, uma das críticas mais contundentes feitas no painel recaiu sobre a postura histórica da própria grande imprensa em relação às gigantes da mineração.

Lucas Ragazzi lamentou que a cobertura aprofundada só tenha ocorrido após o colapso do sistema de rejeitos. “Até Brumadinho, o jornalismo se limitava a pequenas notas”, afirmou o repórter.

A razão para essa leniência jornalística, segundo os palestrantes, passa inevitavelmente pelo poder econômico do setor extrativo. As grandes mineradoras figuram entre os maiores anunciantes do país, exercendo uma influência indireta — e muitas vezes direta — nas redações e na pauta dos veículos de comunicação. O resultado é a fragilização da ética e da transparência em prol de contratos publicitários, relegando o jornalismo crítico a uma posição marginal antes que os desastres aconteçam.

Para os painelistas, o grande desafio atual do jornalismo socioambiental e de mineração é construir um modelo independente, desvinculado dos interesses de grandes financiadores, capaz de ir além do factual diário e investigar a fundo os relatórios de conformidade e as licenças ambientais do setor.

Jornalismo e controle público

Se por um lado a grande mídia enfrenta gargalos econômicos para investigar gigantes minerárias, por outro, os órgãos de controle público possuem a prerrogativa constitucional e o braço técnico para fiscalizar essas corporações.

A integração entre a imprensa e as instituições de fiscalização foi apontada como a saída para evitar novos desastres geotécnicos e ambientais. Ragazzi e Rocha elogiaram ações como a auditoria promovida pelo Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCE/MG) em 2025, focada na fiscalização e na análise da atuação das empresas mineradoras que operam no estado.

Rocha lembrou que os Tribunais de Contas possuem instrumentos de investigação dos quais o jornalismo não dispõe. “É importante essa aproximação para transformar o conteúdo técnico (dados oficiais) em informação pública. A imprensa precisa buscar esses dados, apropriar-se desse conteúdo e reverberá-los em prol da sociedade”, defendeu o repórter da Band Minas.

O evento

O IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas (CNCTC) foi realizado nos dias 3 e 4 de agosto na cidade histórica de Ouro Preto (MG). Promovido pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE/MG) em parceria com a Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) e o Instituto Rui Barbosa (IRB), o encontro debateu os rumos da comunicação pública, do jornalismo e da fiscalização em tempos de crise climática. 

Redação CKS Online com informações do TCE/MG

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