Como a mineração transforma os territórios amazônicos? Quais são os efeitos da expansão dos grandes empreendimentos sobre as comunidades, o acesso à terra e os modos de vida das populações? Essas são algumas das questões que orientam o I Seminário Circuito Espacial da Mineração e Violação dos Direitos Territoriais: O Programa Grande Carajás em Questão, que será realizado de 16 a 21 de novembro, com atividades em Belém e no sudeste do Pará.

A iniciativa articula debates acadêmicos, trabalho de campo e apresentação de pesquisas para discutir os efeitos sociais e territoriais da mineração na Amazônia. A programação é realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade do Estado do Pará (PPGG/Uepa), pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Vegetação na Amazônia (NEPEVA/Uepa) e pelo Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), com apoio da Fapespa, da Capes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Cepasp, do ICMBio, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do CCLA.
Do Grande Carajás aos conflitos territoriais contemporâneos
A programação começa em Belém, no dia 16 de novembro, com a mesa-redonda O Programa Grande Carajás e a reatualização do princípio potosi, às 18h, no Auditório do Básico da Universidade Federal do Pará (UFPA). O debate contará com Horácio Araóz, da Universidade Nacional de Catamarca, na Argentina; Marcela Orozco, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA); Marcela Vecchione, da UFPA; e Marcio Zonta, do MAM. A mediação será do professor Fabiano de Oliveira Bringel, da Uepa.
A discussão propõe uma reflexão sobre a trajetória histórica da mineração e suas relações com a organização econômica e territorial da América Latina. Ao recuperar a referência a Potosí, região historicamente associada à exploração mineral colonial, o debate estabelece uma perspectiva histórica para pensar a mineração contemporânea e os processos de exploração e transformação dos territórios.

Entre os dias 17 e 19 de novembro, a programação segue com atividades de campo envolvendo duas turmas de Geografia da Uepa, dos campi de Belém e Barcarena, e lideranças quilombolas e ribeirinhas de Barcarena. O itinerário inclui observações e paradas em localidades relacionadas à infraestrutura, à atividade minerária e às transformações territoriais no Pará.
A proposta aproxima a formação acadêmica das realidades observadas em campo, permitindo relacionar conceitos e debates da Geografia às experiências de comunidades e às mudanças produzidas por grandes empreendimentos. O percurso também inclui referências ao complexo hidrelétrico de Tucuruí, à ferrovia, a Serra Pelada e a assentamentos da região, conforme a programação preliminar.
Pesquisa acadêmica e experiências dos territórios
Nos dias 20 e 21 de novembro, o seminário propriamente dito será realizado presencialmente no Instituto Agroecológico da Amazônia (IALA), no Projeto de Assentamento Palmares II, em Parauapebas. A programação inclui mesas-redondas, lançamento do documentário Saques e Sacrifícios e um painel dedicado à apresentação de pesquisas.
O painel de pesquisa, previsto para a manhã do dia 21, terá como tema Mineração e violação dos direitos territoriais — os casos de Parauapebas/Canaã dos Carajás e Barcarena: da devolutiva ao enfrentamento. A atividade reunirá estudos sobre resistência camponesa, racismo ambiental, comunidades quilombolas, conflitos territoriais, relações de trabalho e resistência de povos e comunidades tradicionais.
Entre os trabalhos previstos estão pesquisas sobre as resistências camponesas no sudeste do Pará; os efeitos do polo minero-metalúrgico de Barcarena sobre o território quilombola de Gibrié de São Lourenço; as tensões territoriais na ilha de Trambioca; e as resistências de comunidades tradicionais diante da expansão industrial. Também estão previstos estudos sobre os conflitos envolvendo povos indígenas e a atividade garimpeira.
A diversidade dos trabalhos evidencia a contribuição da pesquisa acadêmica para compreender como a mineração se relaciona com diferentes dimensões da vida social, incluindo a permanência nos territórios, a identidade, o trabalho, as questões ambientais e as formas de organização coletiva.
Direitos territoriais em debate
As mesas-redondas dos dias 20 e 21 ampliam a discussão para temas como a genealogia dos saques e desastres na América Latina, as violações de direitos territoriais em Carajás, as normas e formas de governança relacionadas à mineração e as intersecções entre raça, classe e gênero nos territórios atingidos.
A programação também prevê a participação de representantes de organizações sociais, movimentos populares e povos indígenas, aproximando diferentes experiências e perspectivas sobre os conflitos territoriais. O lançamento do documentário Saques e Sacrifícios integra as atividades do dia 19, conforme o cronograma preliminar, e deverá ser confirmado pela organização na programação definitiva.
Ao reunir atividades acadêmicas, pesquisa de campo e participação social, o seminário busca ampliar o debate sobre a mineração para além dos indicadores de produção e crescimento econômico, considerando também os efeitos da atividade sobre os territórios e as populações que os habitam.








