Gustavo Roque, idealizador do documentário.
Um laboratório escondido sob quilômetros de rocha para tentar compreender alguns dos maiores mistérios do Universo. Uma antiga mina de carvão convertida em endereço de cultura, design e turismo. Cavernas de onde antes se extraía ardósia transformadas em um parque com tirolesas, pontes e percursos de aventura.
Parece improvável que lugares tão diferentes façam parte de uma mesma história. É justamente atrás dessas conexões que Gustavo Roque, especialista em inovação e transição pós-mineração, viaja o mundo em “Um Futuro Possível”, série documental brasileira idealizada por ele e coproduzida com a Dromedário Filmes.

A produção nasce da visão de Roque de contribuir para a discussão sobre o futuro dos territórios minerários e os diferentes caminhos que podem ser construídos a partir de seus legados. Com cinco episódios e filmagens em 16 locações de dez países, a série parte de uma pergunta que permeia toda a jornada: o que mais um território minerário pode ser?
“O mais interessante é entender o que existe por trás dessas experiências. Não é simplesmente olhar para uma antiga mina e dizer que ela virou um parque, um laboratório ou um espaço cultural. Queremos entender como essa transformação foi pensada, quem participou dela e o que aquele território conseguiu aproveitar do que já tinha”, explica Roque.
Durante décadas, uma mina pode moldar a economia, a infraestrutura e até a identidade de uma cidade. Quando a atividade muda, diminui ou chega ao fim, nada disso desaparece junto com a última tonelada extraída. Ficam estradas, estruturas, conhecimento, paisagens, histórias e pessoas. A questão é o que fazer com tudo isso.
A resposta, como a série documental pretende mostrar, pode estar onde menos se espera.
Para olhar o Universo, primeiro é preciso descer
Uma das primeiras experiências já registradas pela equipe está em Sudbury, no Canadá. Ali funciona o SNOLAB, um dos laboratórios subterrâneos de pesquisa mais profundos do mundo, instalado a cerca de dois quilômetros de profundidade, dentro da Creighton Mine, uma mina de níquel em operação.
O laboratório reúne pesquisadores de instituições e países em diferentes frentes de pesquisa. A estrutura é uma expansão das instalações construídas para o Sudbury Neutrino Observatory – SNO, experimento que teve papel decisivo na descoberta das oscilações dos neutrinos. O trabalho rendeu ao físico canadense Arthur McDonald o Nobel de Física, dividido com o japonês Takaaki Kajita. Hoje, além da física de astropartículas, o SNOLAB recebe pesquisas em áreas como ciências da vida e tecnologias quânticas.
“Você começa falando de uma mina e, quando percebe, está falando de neutrinos, matéria escura e de pesquisas que tentam ajudar a entender a própria origem e o funcionamento do Universo. Essa convivência entre coisas aparentemente tão distantes é muito impressionante”, diz Roque.
E há outra camada interessante: o laboratório não surgiu depois do encerramento da mina. Ele existe enquanto a mineração continua acontecendo.
“Em vez de pensar apenas no que fazer quando uma mina fecha, o caso canadense sugere que um território pode começar a criar outras vocações muito antes disso”, completa.
E se a mina virar outra coisa?
O SNOLAB é apenas uma das respostas que serão mostradas na série. A milhares de quilômetros dali, outras regiões encontraram respostas completamente diferentes.
Em Llechwedd, no norte do País de Gales, por exemplo, cavernas e estruturas subterrâneas, que fazem parte da história minerária da região, abrigam hoje experiências de aventura. Há circuitos instalados dentro da antiga mina, com tirolesas, pontes, obstáculos e percursos pelas cavernas.
A série documental segue ainda pelos Estados Unidos, Bélgica, Alemanha, Áustria, Polônia, República Tcheca, França e Inglaterra. A última etapa acontece no Brasil, onde quatro casos, distribuídos por três estados, entram na investigação.
“O objetivo não é sugerir que exista uma fórmula capaz de transformar qualquer área minerária em laboratório, museu ou parque. Queremos inspirar e instigar novos caminhos, novas respostas”, destaca.
Roque chama essa forma de olhar para o tema de “pragmatismo otimista”. Em vez de ignorar os impactos e as dificuldades associados à mineração ou apostar em soluções milagrosas, a proposta é procurar experiências concretas e entender o que tornou cada uma delas possível.
“Há uma diferença enorme entre acreditar que todo território minerário terá uma transformação espetacular e admitir que existem caminhos que podem começar a ser construídos antes do fim de um ciclo. É essa segunda hipótese que nos colocou na estrada”, conclui o especialista.
As filmagens de “Um Futuro Possível” estão em andamento. O lançamento da série documental está previsto para o primeiro trimestre de 2027, quando as experiências reunidas ao longo dessa viagem ganharão uma mesma tela e, sobretudo, colocarão em perspectiva uma pergunta que permeia toda a produção: que outros futuros podem começar a ser imaginados hoje para os territórios minerários?
Texto: Suellen Emerick / Hipertexto Comunicação










