A icônica paisagem da Serra dos Carajás, no sudeste do Pará, acaba de ganhar um novo capítulo em sua rica história evolutiva. Conhecida globalmente por abrigar a célebre Flor de Carajás (Ipomoea cavalcantei), planta símbolo de resistência que floresce exclusivamente em solos ricos em ferro, a região agora celebra a descoberta da Aeschynomene delmoana. A nova espécie pertence à família das leguminosas (Fabaceae) e foi oficialmente catalogada em um estudo publicado recentemente no prestigioso periódico internacional Edinburgh Journal of Botany.
A pesquisa é fruto do esforço colaborativo de uma equipe multidisciplinar de cientistas de importantes instituições brasileiras. Liderado por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o trabalho também contou com a coautoria de pesquisadores da EMBRAPA Agrobiologia e do Departamento de Parasitologia da Universidade Federal do Amazonas. A descoberta coroa anos de expedições de campo em uma das províncias minerais mais cobiçadas do planeta.
Ecologicamente singular, a Aeschynomene delmoana estabelece uma associação estreita com as formações de canga da Amazônia, um ecossistema de campos rupestres moldado sobre espessas crostas de minério de ferro. Diferente de grande parte da vegetação amazônica exuberante ao seu redor, essa espécie desenvolveu preferências hidrófitas estritas, prosperando em pântanos temporários, lagoas ferruginosas e margens de rios na serra. Durante o pico da estação chuvosa na região, a planta vive com suas estruturas radiculares completamente submersas, demonstrando uma notável adaptação a ambientes inundáveis extremos.
Do ponto de vista anatômico, a planta é um subarbusto ou arbusto ereto de até um metro de altura, cujas características o diferenciam claramente de seus parentes mais próximos. Embora guarde semelhança morfológica com a Aeschynomene rudis, a nova espécie distingue-se por apresentar folíolos significativamente menores, flores maiores e amarelas com guias de insetos em tons alaranjados, além de um ovário completamente glabro (sem pelos). Outro marcador taxonômico crucial é o fruto em formato de lomento, sustentado por um estipe marcadamente longo e sigmoide, lembrando uma curva em “S”.
Para além da beleza de suas flores, a planta exerce uma função ecológica vital para o ecossistema de solo infértil da canga. Análises biológicas confirmaram que a Aeschynomene delmoana atua como uma eficiente fixadora de nitrogênio, desenvolvendo nódulos radiculares esféricos por meio de simbiose com bactérias benéficas. Esse mecanismo permite que a leguminosa capture o nitrogênio atmosférico e o introduza no solo ferroso, enriquecendo quimicamente o substrato e servindo de base para o sustento de outras plantas nativas da região.
O nome escolhido para batizar a espécie, delmoana, carrega também um forte valor histórico e cultural para a ciência nacional. Trata-se de um tributo a Delmo Fonseca da Silva, destacado coletor de plantas e parataxonomista cujo trabalho incansável de campo na Amazônia garantiu a salvaguarda de centenas de amostras botânicas da Serra dos Carajás em herbários nacionais. A homenagem reconhece o papel essencial dos assistentes de campo na construção da base de dados que torna possíveis descobertas desse porte.
Apesar do entusiasmo científico pela descoberta, o artigo faz um alerta contundente sobre o futuro incerto da nova espécie. Os cientistas realizaram uma avaliação provisória baseada nos rigorosos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e propuseram categorizar a planta como “Em Perigo” (EN). Os cálculos de extensão de ocorrência e área de ocupação revelam que todas as populações mapeadas estão restritas e sob forte pressão antrópica, enfrentando riscos iminentes de declínio de habitat.
O maior desafio para a salvaguarda da espécie reside na sobreposição geográfica de seu habitat com grandes concessions de mineração lavradas para a exploração de ferro e cobre. A contínua expansão da atividade minerária e a acelerada conversão de terras nativas em pastagens ameaçam diretamente a integridade dos corpos d’água temporários essenciais para a planta. Diante desse cenário, a confirmação da Aeschynomene delmoana sinaliza a urgência de conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação de um patrimônio genético único e insubstituível na Amazônia brasileira.







