O governo dos Estados Unidos passará a ser acionista da USA Rare Earth, empresa americana que anunciou recentemente a compra da mineradora brasileira Serra Verde. Conforme publicado pela CNN Brasil, a entrada de Washington no capital da companhia faz parte de um pacote bilionário fechado com o Departamento de Comércio dos EUA, que libera acesso a até US$ 1,6 bilhão para construir uma cadeia integrada de terras raras, metais, ligas e ímãs em solo americano. A matéria destaca que, por meio da emissão de ações ordinárias e instrumentos de compra futura (warrants), o governo dos EUA deixa de ser um mero financiador para ter exposição direta ao desempenho da empresa, reforçando a estratégia de reduzir a dependência ocidental das cadeias de suprimento controladas pela China.
A transação principal, anunciada em abril por US$ 2,8 bilhões, envolve a mina Pela Ema, localizada em Minaçu, Goiás. O texto aponta que o ativo brasileiro é estratégico por ser um dos poucos projetos em operação comercial no mundo, fora da Ásia, focado na produção de terras raras pesadas — elementos fundamentais para setores de alta tecnologia, defesa, semicondutores e veículos elétricos. Embora a conclusão do negócio ainda dependa de aprovações regulatórias e dos acionistas, a reportagem ressalta que a consolidação da venda colocará uma reserva mineral brasileira de altíssima relevância sob a influência direta do Estado americano, em meio a uma acirrada corrida geopolítica global por minerais críticos.
De acordo com o site, os acordos firmados preveem o repasse de até US$ 277 milhões em financiamento federal direto e até US$ 1,3 bilhão em empréstimos garantidos pelo programa CHIPS Act, originalmente desenhado para fortalecer a indústria de semicondutores. A inclusão das terras raras nesse pacote específico demonstra que Washington passou a tratar os minerais críticos como infraestrutura de segurança nacional. Além de assumir o projeto em Goiás, a USA Rare Earth desenvolve a mina de Round Top, no Texas, e planeja expandir a fabricação doméstica de ímãs de neodímio-ferro-boro, buscando consolidar o modelo que o setor chama de “da mina ao ímã”.
Para especialistas consultados pela matéria, o episódio evidencia o peso estratégico do Brasil na transição energética e na geopolítica de defesa, dado o vasto potencial do país em reservas de terras raras, lítio, nióbio e níquel. Contudo, o grande desafio nacional permanece sendo a capacidade de avançar além da extração primária de minério. A maioria dos projetos em território brasileiro ainda se encontra em estágios iniciais de pesquisa ou licenciamento, e o desenvolvimento local de etapas complexas — como a separação química e a fabricação de ligas metálicas — esbarra na necessidade de investimentos maciços e de alta tecnologia.
O avanço norte-americano sobre o ativo goiano deve acelerar os debates no Congresso Nacional sobre soberania mineral e agregação de valor econômico no país. A reportagem relata que o Senado Federal analisa uma proposta, já aprovada pela Câmara, para instituir uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O projeto prevê incentivos à industrialização e à inovação tecnológica no setor mineral, mas analistas alertam nos bastidores que o Brasil corre contra o tempo para não perder uma janela histórica de oportunidades e acabar relegado, mais uma vez, ao papel exclusivo de fornecedor de matéria-prima bruta.
O movimento de Washington escancara esse contraste regulatório e financeiro: enquanto os EUA utilizam agressivamente capital público, subsídios e participação societária para garantir autonomia industrial, o Brasil ainda busca caminhos para converter sua riqueza geológica em capacidade manufatureira real. Diante do caso da Serra Verde, que produz um concentrado refinado a partir de argilas iônicas, o cenário atual passa a exigir do governo brasileiro diretrizes muito mais claras e robustas, garantindo que o processamento e o desenvolvimento tecnológico desses minerais críticos também ocorram dentro das fronteiras nacionais.










