Enquanto o mercado acelera investimentos em inteligência artificial e renovação de talentos, uma empresa que atua na Amazônia decidiu apostar no oposto: efetivou um profissional 80+ para preservar um conhecimento construído em mais de 40 anos de floresta. Aos 83 anos, o naturalista João Batista Fernandes deixou de atuar como terceirizado e passou a integrar a equipe da Mineração Rio do Norte (MRN), transformando experiência acumulada, memória e convivência com a biodiversidade amazônica em ativos estratégicos para a companhia.
A contratação direta ocorreu em março deste ano, após anos de atuação do pesquisador como terceirizado no Programa de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD). Segundo Vladimir Senra Moreira, diretor de Sustentabilidade e Jurídico da empresa, a efetivação do pesquisador materializa o compromisso com a diversidade, inclusão e valorização da experiência. “Para a MRN, conhecimento, memória técnica e vivência são ativos fundamentais, sobretudo em atividades ligadas à Amazônia, que exigem sensibilidade de campo e visão de longo prazo”.
A gerente-geral de Recursos Humanos da MRN, Magda Damasceno, explica que a efetivação está alinhada a uma estratégia mais ampla de diversidade e valorização de talentos, por meio do programa “MRN Pra Todos”. “Quando falamos de diversidade, também estamos falando de diversidade geracional. A experiência acumulada tem valor estratégico”, afirma. “O programa abraça profissionais para garantir maior representatividade, incentivar e valorizar mulheres, negros, diferentes gerações, como profissionais 40+, pessoas com deficiência e LGBTQIAPN+”, destaca Magda.
Conhecimento que não pode ser automatizado
A permanência de João Batista é vista pela MRN como forma de preservar um conhecimento construído no campo, que não se substitui apenas por tecnologia, registros técnicos ou processos formais. “Muito desse aprendizado vem da observação diária da natureza, dos ciclos da floresta e das experiências acumuladas ao longo da vida”, afirma Magda.
No lançamento do livro “Onde andei valeu a pena”, sobre sua trajetória na Amazônia, Batista resumiu o motivo de continuar trabalhando aos 83 anos. “Eu faço por curiosidade, por amar a floresta e querer entender como ela funciona”. O pesquisador revela que nunca planejou sua carreira pensando em estabilidade: “As oportunidades aparecem na vida e você aproveita ou deixa passar. A floresta foi meu aprendizado.”
No caso da Amazônia, essa experiência ganha ainda mais peso. Projetos ambientais de longo prazo exigem acompanhamento de espécies, da floresta e processos de regeneração natural. A formação prática de profissionais mais jovens acontece na convivência com João Batista. “É um conhecimento vivo. Ele consegue observar detalhes que só décadas de experiência permitem perceber”, resume Jocenildo Marinho, analista ambiental da MRN.
Diversidade com valorização de profissionais 40+
A política de inclusão da MRN também alcança outros perfis profissionais. Quilombola do território Boa Vista, Rosalba Lúcia Sena, de 55 anos, ingressou na empresa em 2024 por meio do programa Portas Abertas, voltado à contratação de quilombolas e ribeirinhos. “Quero somar, crescer e provar que não existe idade para construir uma carreira profissional, basta determinação e vontade”, afirma Rosalba Sena. Atualmente, mais de 60% dos empregados próprios da MRN estão na faixa dos 40+. A convivência entre gerações é uma ferramenta para acelerar o aprendizado e preservar a memória técnica. “Existe um ganho enorme nessa troca”, acrescenta a gerente-geral de RH da MRN: “Longevidade profissional também é inovação”.










