José Augusto Alvim: o engenheiro que ajudou a construir a excelência da manutenção em Carajás e transformou conhecimento em legado

Nesta edição do Minerando Histórias, contamos a trajetória de José Augusto Alvim, engenheiro mecânico, professor, escritor e um dos profissionais que contribuíram diretamente para consolidar a cultura de excelência operacional e tornar o Projeto Carajás uma referência mundial.

A mineração é feita de grandes máquinas, projetos ousados e números impressionantes. Mas, acima de tudo, é construída por pessoas. E são essas trajetórias que o CKS Online resgata na coluna especial Minerando Histórias, um espaço dedicado a preservar a memória daqueles que ajudaram a construir a história da mineração na Província Mineral de Carajás.

Nesta edição do Minerando Histórias, contamos a trajetória de José Augusto Alvim, engenheiro mecânico, professor, escritor e um dos profissionais que contribuíram diretamente para consolidar a cultura de excelência operacional e tornar o Projeto Carajás uma referência mundial.

Recentemente, após 26 anos longe da Serra dos Carajás, ele retornou ao local ao lado da esposa para revisitar cenários, reencontrar lembranças e reviver um capítulo fundamental de sua vida pessoal e profissional.

Uma viagem que acabou se transformando em um reencontro com a própria história.

Das montanhas de Ouro Preto para a engenharia

Nascido em 1951, em Ouro Preto (MG), José Augusto Alvim cresceu cercado pelas montanhas que ajudaram a moldar a história da mineração brasileira.

Em 1978, formou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade Católica de Minas Gerais, em Belo Horizonte.

Recém-formado, iniciou sua trajetória profissional na Samarco Mineração, em Mariana (MG), atuando na usina de concentração. Pouco tempo depois foi transferido para a unidade de pelotização de Ubu, no Espírito Santo, onde trabalhou com planejamento e manutenção industrial.

Foram os primeiros passos de uma carreira que atravessaria diferentes setores da indústria brasileira.

A escola da manutenção industrial

Em 1981, aceitou um novo desafio na indústria de celulose.

Durante aproximadamente seis anos, viveu aquilo que considera um dos períodos mais importantes da sua formação profissional.

Foi nessa fase que deixou de ser apenas um especialista técnico para desenvolver habilidades de liderança, gestão e engenharia de manutenção.

Ao longo dos anos assumiu cargos de supervisão e chegou à chefia da Divisão de Engenharia de Manutenção.

“Foi onde tive um crescimento enorme de conhecimento. Aprendi não apenas sobre equipamentos, mas também sobre pessoas e gestão.”

O desafio das máquinas de mineração

Mesmo com sólida experiência em plantas industriais, Alvim sentia que ainda faltava uma etapa em sua formação.

Conhecia profundamente sistemas industriais, motores, redutores, hidráulica, pneumática e equipamentos de processo, mas ainda não dominava os grandes equipamentos móveis da mineração.

A oportunidade surgiu na Serra do Navio, no Amapá.

Ali mergulhou no universo dos caminhões fora de estrada, tratores, motoniveladoras e equipamentos pesados.

Foi justamente esse conhecimento que abriria as portas para sua chegada a Carajás.

1990: a chegada ao Projeto Carajás

O convite para integrar a Vale surgiu em 1990. Inicialmente, recusou.

Na época possuía uma posição confortável e uma estrutura familiar consolidada.

Mas algum tempo depois decidiu rever sua decisão.

A família buscava novas oportunidades e um ambiente com mais opções de convivência social para os filhos.

Foi então que aceitou o desafio de mudar-se para a Serra dos Carajás.

“Eu não fui para Carajás para aprender. Eu fui para contribuir. Mas saí de lá muito maior do que cheguei.”

A cultura que formou gerações

Ao chegar a Carajás, Alvim encontrou algo que nunca havia visto em nenhuma outra empresa.

Uma cultura organizacional baseada em autonomia, responsabilidade, inovação e valorização das pessoas.

Ele faz questão de destacar líderes que marcaram sua trajetória, como Mozart Litwinski, Ricardo Dechechi, Marconi Viana e Juarez Saliba.

Segundo ele, Carajás estava anos à frente do restante do Brasil em gestão de pessoas.

“Carajás formava pessoas diferentes. Pessoas que tinham coragem de inovar.”

Uma das iniciativas que mais o impressionou foi a criação dos supervisores administrativos, profissionais responsáveis por atender demandas dos empregados relacionadas a recursos humanos, transporte, alimentação e qualidade de vida.

Para Alvim, esse modelo era revolucionário para a época.

Liderando mais de 200 profissionais

Durante sua passagem por Carajás, assumiu diversas posições de liderança.

Chegou a comandar equipes com mais de 200 profissionais entre manutenção e operação de caminhões fora de estrada.

Entre os colegas que marcaram sua trajetória, faz questão de citar Mesaque Silva Coelho, Cássia Gomes, Raimundo Barbosa, José Maria, profissionais que ajudaram a construir resultados e fortaleceram uma cultura de confiança e lealdade.

“Aprendi que o papel do gerente não é fazer tudo. O papel do gerente é escolher as pessoas certas e criar condições para que elas façam acontecer.”

O avião que se tornou símbolo de Carajás

Entre os projetos marcantes de sua trajetória está a recuperação da histórica aeronave Douglas C-47, variação militar do DC-3, fabricada em 1942 e reconhecida por ter sido a primeira aeronave a pousar na base de pesquisa no N1, em 1981, durante a implantação do Projeto Carajás, inaugurando o transporte aéreo na região.

Na época, o avião encontrava-se praticamente abandonado, sem motores, hélices e com diversas peças já vendidas como sucata. A partir de um desafio lançado pela direção da Vale, Alvim coordenou uma equipe formada por profissionais da empresa e especialistas ligados ao Museu da Aeronáutica. Ao lado do engenheiro Luiz Antônio e do supervisor Décio, liderou o projeto que devolveu vida a uma das peças históricas mais emblemáticas de Carajás.

Décadas depois, a aeronave restaurada continua em exposição em frente ao Aeroporto de Carajás, consolidada como um dos principais cartões-postais e símbolos da memória da mineração na Serra dos Carajás.

As trilhas que viraram lenda

Se durante a semana a rotina era intensa, nos finais de semana a aventura assumia o comando.

Apaixonado por motociclismo, Alvim integrou um grupo de trilheiros que explorava as matas e estradas da Serra dos Carajás.

As expedições atravessavam rios, serras e antigas áreas de garimpo.

Entre elas, a famosa “Trilha da Morte”, conhecida pelos desafios extremos.

“Foi uma das maiores alegrias da minha vida.”

As trilhas renderam amizades duradouras e fortaleceram ainda mais sua ligação emocional com a região.

A família que cresceu na Serra

Casado há 51 anos com Efigênia Mazon Alvim, Alvim viu os filhos Alessandro, Marcelo e Juliana crescerem em Carajás. Foi ali que viveram boa parte da infância e adolescência.

A família participou de eventos esportivos, olimpíadas internas da Vale e da intensa vida comunitária que caracterizava a Serra dos Carajás.

“Carajás foi uma escola para os meus filhos.”

A organização da cidade, o contato permanente com a natureza, a segurança e o senso de comunidade deixaram marcas profundas em toda a família.

A despedida de Carajás

Em 1999, após aproximadamente nove anos na Serra dos Carajás e cerca de 17 anos de trajetória dentro da Vale, Alvim deixou a região para assumir novos desafios profissionais no Espírito Santo.

Mas a experiência acumulada em Carajás o acompanharia para sempre.

Muitas das ideias e conceitos que aplicaria posteriormente nasceram justamente naquele período.

Professor: compartilhando conhecimento para novas gerações

Após sua trajetória executiva, José Augusto Alvim decidiu seguir um novo caminho.

Tornou-se professor do então CEFET do Espírito Santo, atual Instituto Federal.

Nas salas de aula, lecionou disciplinas ligadas ao desenho técnico, mecânica e manutenção industrial.

Foi nesse período que percebeu uma lacuna entre aquilo que as universidades ensinavam e aquilo que as empresas realmente precisavam.

A partir dessa constatação nasceu uma nova missão: transformar experiência prática em conhecimento acessível para as novas gerações de profissionais.

Petrobras e a consolidação de uma filosofia

Posteriormente ingressou na Petrobras, onde atuou em projetos ligados à confiabilidade, auditorias e estratégias de manutenção.

Foi nesse período que aprofundou seus estudos sobre confiabilidade operacional e metodologias modernas de manutenção.

As experiências acumuladas na mineração, ferrovia, indústria de celulose e petróleo passaram a formar uma visão única sobre gestão de ativos industriais.

Uma visão construída ao longo de décadas.

O escritor que transformou experiência em legado

Toda essa trajetória culminou na publicação do livro “Estratégia de Manutenção e RCM: O Elo que Faltava”.

Mais do que uma obra técnica, o livro representa o legado intelectual de José Augusto Alvim.

Ao longo das páginas, ele reúne conhecimentos adquiridos em quase cinco décadas de atuação profissional.

Uma parte significativa desse aprendizado nasceu justamente em Carajás.

Foi ali que vivenciou projetos pioneiros de auditoria de manutenção, gestão por processos, confiabilidade operacional, liderança de equipes e inovação.

Experiências que mais tarde seriam aprofundadas em outras grandes empresas brasileiras.

A obra é direcionada a engenheiros, técnicos, estudantes e gestores que desejam compreender como construir estratégias de manutenção mais eficientes, confiáveis e economicamente sustentáveis.

Segundo o autor, o livro busca aproximar a teoria da realidade vivida diariamente pela indústria.

“Esse livro reúne tudo aquilo que aprendi durante a minha vida profissional.”

Para os profissionais da mineração, manutenção, siderurgia, energia e indústria pesada, trata-se de uma oportunidade de conhecer a visão de alguém que participou diretamente da evolução da engenharia de manutenção brasileira.

O retorno após 26 anos

Em maio deste ano de 2026, José Augusto Alvim retornou à Serra dos Carajás após 26 anos de ausência.

Ao lado da esposa, Efigênia, conhecida como Gege, visitou a antiga residência da família, passou pelos locais que marcaram sua trajetória e reviveu lembranças guardadas pelo tempo.

Ao cruzar novamente a portaria de Carajás e percorrer as ruas do Núcleo Urbano de Carajás cercadas pela floresta, reencontrou algo que jamais havia esquecido.

O sentimento de pertencimento.

Mesmo com as transformações naturais ocorridas ao longo dos anos, encontrou a Carajás como deixou, organizada, limpa e preservada.

E isso o emocionou.

“Quando você passa pela portaria e vê novamente a floresta fechando sobre a estrada, percebe que Carajás continua sendo um lugar especial.”

Um legado que permanece

Hoje, aos 75 anos, José Augusto Alvim é muito mais do que um engenheiro pioneiro.

É um gestor que ajudou a construir uma cultura de excelência.

Um líder que formou equipes.

Um professor que compartilhou conhecimento.

Um escritor que registrou décadas de experiência para as futuras gerações.

E um personagem cuja trajetória se confunde com a própria história do Projeto Carajás.

Porque minas se esgotam.

Equipamentos são substituídos.

Tecnologias evoluem.

Mas o conhecimento construído por homens e mulheres que ajudaram a erguer Carajás permanece vivo.

E é justamente nesse patrimônio humano que está uma das maiores riquezas da mineração brasileira.

Esta foi mais uma edição da coluna especial Minerando Histórias, do CKS Online, dedicada a preservar a memória daqueles que ajudaram a construir a história da mineração na maior província mineral do planeta.

Por Wagner Santos

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