Empresária Celiane Damascena Silva
Em nossa coluna Minerando Histórias, mergulhamos nas trajetórias de quem ajudou a construir a identidade da Região de Carajás. Hoje, trazemos um relato que mistura a dureza do aço das máquinas da mineração com a delicadeza de uma força que se renova na dor. Celiane Damascena Silva, 41 anos, é a face da persistência em Parauapebas — uma mulher que aprendeu, ainda menina, que a vida pode mudar de rumo em um instante, mas que o “alvo” nunca deve ser perdido.
O trauma que moldou o caráter
A história de Celiane é marcada por um divisor de águas trágico, ainda na infância. Nascida na cidade de Maraba (PA), ela é a filha mais velha de Celio da Costa e Deuzami Damascena da Costa, e tem dois irmãos, Daniel e Gabriel.

Celiane ainda criança com os pais e os irmãos.
O pai foi garimpeiro na Serra Pelada (PA) até 1982 e com o dinheiro que adquiriu investiu na compra de um hotel em Jacundá (PA). Junto com a esposa, tinha uma vida de muito trabalho, mas tabém de dedicação as causas sociais e a Igreja Adventista do 7º Dia. A familía de Celiane morou neste município até os seus 9 anos e depois foi para Araguaína (TO), cidade onde morava sua avô paterna Diolina.
Apesar da distância, o vínculo com o Pará permaneceu. Seu pai Celio tinha fazenda no estado e vinha com frequência às terras paraenses. Porém, nessas andanças contraiu malária e ficou hospitalizado por um tempo em Araguaína. Próximo de receber alta, ele quis ser transferido para o Hospital Adventista de Belém. Sua vontade foi atendida, porém, a transferência teve um fim trágico.
No dia 19 de agosto de 1994, antes da viagem que deveria ser de cura, Célio marcou na bíblia para a filha primogênita um versículo que viria a ser o mantra de sua vida: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4:7). Na mesma data, horas depois, um acidente de trânsito tirou a vida de Célio e deixou a mãe de Celiane em estado grave, na UTI.
“Eu, aos 10 anos e a há um mês operada das amigdalas, sofri esse trauma. A familia da minha mãe foi nos buscar e somente depois de dois meses fui vê-la em uma cama, com as pernas quebradas e o rosto todo costurado. Foi como cair de um carro de mudança, pois fomos de uma vida a outra em instantes”, relembra Celiane.
Depois do trágico acidente, Celiane e os irmãos passaram por momentos difíceis. Com a mãe impossibilitada de cuidar dos filhos, eles moraram na casa de parentes e tiveram que trabalhar apesar da pouca idade.
“Nós buscavamos ganhar algum dinheiro, mas lá – na casa de uma tia em Brasília – trabalhavámos por roupa e comida mesmo. Na casa do meu avô eu pegava meus primos para cuidar e ganhar algum dinheiro também”, relatou.
Dos dias de trabalho doméstico na casa de parentes à correria para conciliar estudos e sobrevivência, Celiane forjou uma resistência rara. Aos 17 anos, voltou para Marabá, onde conheceu o grande amor de sua vida: Rafael Oliveira.

Celiane e Rafael
Eles se casaram e logo tiveram o primeiro filho, Célio Rafael, e algum tempo depois veio a caçula Giovana. Quando Celiane estava com 20 anos, o casal decidiu se mudar para Parauapebas, a “Capital dos Minérios”, iniciando uma nova etapa em suas vidas.
Parauapebas: Onde o sonho ganhou engrenagens
No final de 2004, o casal chegou a Parauapebas com um sonho e poucos recursos. A Hidráulica Rafael nasceu da herança profissional de Rafael, que desde os 13 anos trabalhava no ramo com o pai e já tinha muita vontade de montar a própria oficina. Os primeiros passos na cidade não foram fáceis: o aluguel caro os forçou a levar a oficina para dentro de casa. “Moravámos em três cômodos e em dois era oficina, tudo misturado”, descreve Celiane.


1ª e 2ª hidráulicas


Ali, entre o cheiro de óleo e o barulho das ferramentas, Celiane e Rafael construíram não apenas uma empresa, mas uma parceria de 20 anos. “Muitas vezes trabalhamos debaixo de uma lona”, conta ela. Com o apoio da família e a força do mercado local, a pequena oficina cresceu junto com a cidade, consolidando-se como uma referência na venda de autopeças e serviços hidráulicos, atendendo a uma demanda que pulsa no ritmo das máquinas que movem a economia mineral da região.





Celiane com Rafael e os filhos Célio Rafael e Giovana
A dor da ausência
Entretanto, em 29 de novembro de 2024, o destino impôs a Celiane sua segunda grande perda. Seu esposo Rafael foi vítima de um acidente de trabalho enquanto realizava a manutenção de um trator, em uma fazenda na zona rural de Piçarra (PA). Ele chegou a ser socorrido e encaminhado para o Hospital Geral de Marabá, mas não resistiu aos ferimentos.


Logo após o acidente, antes mesmo de ser socorrido, Rafael chegou a enviar áudios para Celiane e os filhos. “Ele me disse: Meu amor, se acontecer algo comigo, saiba que eu te amo muito, amo muito Célio e Giovana. Depois me mandou uma foto, sorrindo”, relata chorando.
A partida precoce de Rafael deixou um vazio emocional e um desafio profissional gigante para Celiane. No dia 2 de dezembro, apenas um dia após o sepultamento do esposo, ela estava na empresa trabalhando.
A decisão de não fechar as portas foi um gesto de respeito aos colaboradores, clientes e ao legado do parceiro. “Eu precisava mostrar que a Hidráulica Rafael ia continuar. Encontrei forças em Deus, na equipe que estava comigo, nos amigos e nos meus filhos”, afirma.
E cada dia tem sido de aprendizado e de lutas. Luta para continuar a frente da empresa, mantendo o legado de Rafael; luta para conviver com as lembranças de uma rotina de convivência familiar e de trabalho que eram diárias; e luta para suportar a dor da saudade.



“Cada lugar dessa empresa é a cara dele, é dificil demais. Muitas vezes, ao levantar da cama, os nervos desfalecem, mas é necessario continuar. As vezes, calço as meias do Rafael como se ali eu tivesse parte dele em mim para ter forças”, confidencia emocionada.
O novo desafio
“Costumo falar que passei por dois momentos nos quais fui obrigada a me reinventar: primeiro quando perdi meu pai, aos 10 anos, e depois quando perdi Rafael, minha base novamente, aos 40 anos”, avalia Celiane.
Na infância, ela teve que passar por muitas privações. Agora o cenário é outro, mas os desafios também são grandes, pois está a frente de um negócio predominantemente masculino, onde as cobranças são ainda maiores e subestimam sua capacidade, apenas por ser mulher.
“Não tem sido fácil pois a profissão é dele, é um ramo masculino. No dia 29/11/2024 ele faleceu, no dia 01/12/2024 foi enterro e na segunda, dia 02/12/2024, eu vim para empresa pois pensei, sou mulher e preciso mostrar aos meus colaboradores e clientes que vou continuar, que a Hidráulica Rafael vai continuar, alguns falavam para eu fechar durante três dias, mas o compromisso com meus clientes eram maiores”, justifica.





Nesse universo, Celiane avalia que atuar em Parauapebas significa estar inserido em um ecossistema onde a mineração é o coração. A atividade mineral não é apenas um pano de fundo, mas o combustível que impulsiona sua empresa e abre portas para parcerias. Ela entende que, em um setor dominado por homens, sua presença como gestora é um ato de afirmação.
Hoje, Celiane não é apenas a administradora da Hidráulica Rafael. Ela ocupa postos de destaque na liderança empresarial da cidade. É Diretora Tesoureira da Associação Comercial, Industrial e Serviços de Parauapebas (ACIP) e Vice-presidente do Conselho da Mulher Empreendedora (CMEC) da entidade. “A ACIP e o CMEC são uma segunda família para mim, me acolheram muito”, enfatiza.
Ela também atua em entidades filantrópicas e apoia causas sociais. “Eu faço parte do Rotary, sou tesoureira Instituto Iluminar e apoio o Instituto Via Autismo. Temos ainda um projeto próprio ‘Juntos contra a fome’”, enfatiza ressaltando que aprendeu com os pais princípios de solidariedade.
Ao olhar para o passado, desde a menina que vendia tecidos na loja do avô e fez serviços domésticos até a líder que hoje ajuda outras mulheres a empreender, Celiane se define como um sucesso — não pelo que acumulou, mas pelo que superou.
“Quando olho para o meu passado e vejo cada degrau que já subi e quantos já desci, eu vejo que jamais desisti, mesmo que por alguns momentos eu mude de rota, mas o alvo permanece”, destaca.
Apesar de enxergar o seu empreendedorismo como uma vocação ´que herdou da família, ela acredita que ser empreendedora é algo que pode ser construído. “Tudo depende da vontade, da persistência e se no momento faz sentido”, analisa.
Para as mulheres que desejam começar e tem dúvidas sobre o que e como fazer, ela aconselha a pensar em algo que goste e nas habilidades que possui. Além disso, é primordial fazer pesquisa de mercado, buscar se conectar com mulheres que já estejam empreendendo, participar de grupos de apoio e procurar boas mentorias, que possam compartilhar experiência e oferecer conselhos.
“Seja persistente, o caminho do empreendedorismo pode ser desafiador, mas a persistencia é fundamental para o sucesso”, conclui.
A empreendedora finaliza declarando seu amor pela cidade onde formou sua família e construiu seu negócio: “Eu amo Parauapebas, foi a cidade que me acolheu. É um município em constante desenvolvimento, que tem um potencial incrivel para o empreendedorismo. Espero que possamos continuar e crescer juntos com a comunidade e acredito que com perseverança e inovação, podemos superar desafios e alcançar nosso objetivos.”
A história de Celiane Damascena é a prova de que, assim como o minério que passa pelo fogo para se transformar em algo valioso, a vida pode ser refinada pelas provações, resultando em uma liderança resiliente e inspiradora.
Minerando Histórias é uma coluna do CKS Online que narra a trajetória de pessoas que fizeram/fazem parte da história da Província Mineral de Carajás (PA). Afinal, a maior riqueza desta região não é o minério, mas sim a fibra das pessoas que aqui fincaram suas raízes. Minerando Histórias é o nosso tributo a quem ajudou a escrever os capítulos mais emocionantes de Carajás.
Texto: Wellington Borges / Fotos: Acervo pessoal de Celiane Damascena








Respostas de 3
Uma história muito emocionante, e cheias de superação! Parabéns pra essa família linda e em especial para Celiane Damascena! Vc é incrível!
Isso chama se superação parabéns
Esta mulher é uma Fortaleza. Parabéns Celiane. Que Deus continue te abençoando junto a sua família. Forte abraço.