
No mesmo dia em que o Senado Federal aprovava a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (2 de setembro), autoridades do setor mineral se reuniram para discutir os desafios e perspetivas para a mineração no Brasil durante o Café com a Indústria, promovido pela Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
Com o tema “Minerais críticos: potencial brasileiro para o desenvolvimento industrial e tecnológico”, o evento tratou dos esforços empreendidos pelo país para avançar nas cadeias produtivas ligadas a bens minerários. Mariano Laio, chefe da Divisão de Minerais Críticos e Estratégicos da ANM, acompanhou e debate e acredita que a agregação de valor é fundamental para o Brasil, pois movimenta toda a sociedade.
“Além gerar riqueza por aumentar o preço de venda em relação ao mineral bruto, o país gera empregos qualificados, distribui renda e estimula não só a indústria, mas também o setor de serviços e comércio. E ainda tem toda uma questão de tecnologia e inovação, pois você vai movimentar universidades, formação de recursos humanos, e preparar parte da população para atuar nessas áreas mais avançadas”, explica.

Entretanto, ele defende que desenvolver as cadeias de manufatura não significa deixar de lado a posição do Brasil no mercado global enquanto fornecedor de insumos minerais primários. “São coisas complementares. Temos um espaço consolidado que não podemos perder, e o minério de ferro é um exemplo disso. O país precisa avançar sem perder o que já foi conquistado”, resume.
Escolhas e estratégias para desenvolver a cadeia
Durante a primeira mesa do evento, que tratou de “Minerais críticos no Brasil: recursos, investimentos e desenvolvimento da cadeia”, Pablo Cesário, diretor-presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), destacou um estudo recém-lançado pela entidade que traz estratégias para a estruturação de cadeias de valor em um horizonte de 12 a 14 anos, listando as empresas e tecnologias que faltam para o país alcançar seus objetivos no setor.
“Buscamos trazer uma visão geral sobre o que o Brasil precisa fazer e em quanto tempo. E isso envolve toda a cadeia. Não adianta fazer fragmentado, temos de estruturar grandes projetos de pesquisa que envolvam empresas e diferentes institutos. O setor mudou porque o mundo está mudando em torno da transição energética. E esse futuro passa pela mineração”, resume.
Na visão de Roberto Xavier, diretor executivo da Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (ADIMB), não é possível avançar em todas as cadeias minerais ao mesmo tempo. Assim, o país terá de fazer escolhas e investir nas que considera mais estratégicas e capazes de gerar vantagens competitivas.
“Um grande gargalo que ainda temos é a formação de recursos humanos. Há um desequilíbrio entre o que os estágios mais avançados da indústria demandas e o que temos à disposição em termos de pessoal. Brasil é muito bom nas etapas de pesquisa mineral, descoberta, até a produção, então temos ótimos geólogos e engenheiros de minas. Mais ainda faltam profissionais que enxerguem a cadeia como um todo e transformem o recurso mineral em bem tecnológico”, opina.
Financiamento e mercado de capitais
Outro ponto crítico para o Brasil diz respeito ao financiamento do setor. Marisa César, presidente do Conselho de Administração da Associação de Minerais Críticos (AMC), explica que 81% dos investimentos na cadeia nacional de minerais críticos vêm de investidores de fora do país, o que torna necessário criar incentivos para atrair e manter esse capital.
“O projeto não explicita quais seriam os minerais críticos e estratégicos do Brasil nem traz os critérios e competências para homologação dos projetos pelo Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE). Isso acaba gerando medo de as empresas terem suas iniciativas vetadas, o que pode atrasar o andamento e até fazer com que os investidores privilegiem outros países em detrimento do nosso”, argumenta.
Nesse sentido, Miguel Nery, gerente executivo da ABPM, destacou pontos positivos do projeto aprovado pelo Senado, como a criação de um fundo garantidor e de mecanismos fiscais de incentivo. No entanto, ele acredita que ainda falta uma regulamentação no mercado de capitais que permita às empresas de pesquisa serem listadas na bolsa de valores brasileira para captar recursos.
“Uma companhia tradicional tem seu valor de mercado avaliado com base no balanço. Porém, uma empresa de pesquisa mineral não tem produção para apresentar. Por isso, é preciso incluir a figura das junior companies, cujo valor de mercado se mede pelo potencial das suas descobertas. Como isso ainda não existe na B3, elas estão sendo listadas nas bolsas do Canadá e Austrália”, encerra.











