O consultor aeronáutico Wantuê Nascimento em entrevista a Wagner Santos, do CKS Online.
A construção de um aeroporto em Canaã dos Carajás deixou de ser apenas um projeto no papel e passou a ocupar o centro das discussões sobre o futuro da mobilidade aérea e da economia regional. Mas entre expectativas e anúncios, uma pergunta continua sendo a mais repetida entre moradores: Quando o primeiro avião vai pousar em Canaã?
Para responder com base técnica e experiência prática, o CKS Online conversou com o consultor aeronáutico Wantuê Nascimento em Parauapebas, profissional com 27 anos de atuação na aviação civil, especialista em planejamento aeroportuário e infraestrutura aeronáutica na região. Na avaliação dele, o prazo existe e já pode ser estimado com razoável segurança.
Prazo estimado: aeroporto pode operar em até cinco anos
Segundo o especialista, o cenário mais realista aponta que o aeroporto poderá entrar em operação dentro de um período considerado tecnicamente viável.
“Sendo bem realista e direto: estimo que a primeira fase de implantação do Plano Diretor do aeroporto leve de quatro a cinco anos para entrar em operação, desde que todas as etapas ocorram sem interrupções”, afirmou Wantuê Nascimento.
Embora o prazo possa parecer longo para quem aguarda o início das operações, no setor aeronáutico esse tempo é considerado ágil, principalmente para um projeto de grande porte.
Convênio recente entre Estado e município acelera o processo
Um avanço considerado estratégico ocorreu recentemente e pode influenciar diretamente no prazo final da obra. No mês passado, foi firmado o Convênio de Delegação de Competência nº 01/2026 entre o Estado do Pará e a Prefeitura de Canaã dos Carajás, permitindo que o próprio município conduza o licenciamento ambiental. Na prática, isso representa ganho de tempo e maior autonomia local.
“Com a delegação de competência, o município poderá conduzir o licenciamento com mais rapidez, inclusive com possibilidade de emissão de licença unificada, quando sai a Licença Prévia e a de Instalação — ou a LPI — o projeto deixa de ser papel e vira obra encurtando meses de espera”, explicou o consultor.
Recursos garantidos: Canaã possui musculatura financeira para a obra
Diferente de muitos municípios brasileiros que dependem exclusivamente de recursos federais, Canaã dos Carajás possui uma realidade econômica peculiar. O município é hoje um dos maiores arrecadadores de royalties da mineração do Brasil, impulsionado por projetos minerais de grande escala, como S11D e Sossego. Essa condição financeira robusta coloca o município em posição privilegiada para executar obras estruturantes.
Essa base econômica sólida reduz significativamente o risco de paralisação por falta de recursos — um problema comum em grandes obras públicas. O próprio especialista destaca que a saúde financeira municipal é um diferencial importante para a execução do projeto.
Canaã x Parauapebas: comparação técnica entre os aeroportos
O principal terminal aéreo da região atualmente é o Aeroporto de Carajás, localizado em Parauapebas, que opera com aeronaves comerciais de médio porte e atende, sobretudo, à demanda regional de passageiros.
Já o projeto do aeroporto de Canaã dos Carajás tem uma proposta mais ampla e estratégica, com foco na logística de cargas pesadas e no transporte de longo curso. A estrutura prevista busca transformar o terminal em um hub integrado às principais operações minerais da região, como as minas S11D e Sossego, permitindo conexão direta com mercados globais e reduzindo a necessidade de transbordo em outros centros logísticos.
Com infraestrutura projetada para maior capacidade e expansão futura, o aeroporto de Canaã tende a ter maior longevidade operacional e atender a demandas mais complexas da atividade mineral.
Na prática, Wantuê Nascimento aponta que não se trata de concorrência entre os dois terminais, mas de uma complementação logística que deve elevar o nível de eficiência do transporte aéreo na região.
Aeroporto de Carajás (atual)
Opera aeronaves como:
AERONAVE COMPANHIA AÉREA ASSENTOS OFERTADOS CARGA COM TOTAL DE PASSAGEIRO CUBAGEM DO ESPAÇO DA CARGA Boeing 737-700 GOL 138 1 a 2 tonelada 27,4 m³. Boeing 737-800 e 737-800 MAX GOL 186 1,5 a 3 toneladas 43,7 m³ Embraer 195 E2 AZUL 136 1 a 2 tonelada 30 m³ Airbus A 320 Neo AZUL 214 1 a 2 tonelada 37 m³
Aeroporto de Canaã (projeto futuro)
O novo aeroporto foi planejado sob Código Internacional 4E, permitindo operar aeronaves significativamente maiores.
AERONAVE COMPANHIA AÉREA ASSENTOS OFERTADOS CARGA COM TOTAL DE PASSAGEIRO CUBAGEM DO ESPAÇO DE CARGA Boeing 747-8i A definir 364 (4 classes) Aprox. 20.000 kg 161,5 m³ Airbus A350-1000 A definir 327 (2 classes) Aprox. 18.000 kg 208,2 m³
Entre elas: a escolha pela categoria 4E no aeroporto de Canaã dos Carajás visa ir além dos voos comerciais comuns. O objetivo principal é fortalecer a logística de carga pesada, permitindo que aviões de grande porte operem diretamente na cidade para importar insumos e exportar minérios, eliminando a necessidade de escalas ou transferências em outros centros logísticos.
O que precisa acontecer antes do primeiro voo
A construção de um aeroporto envolve muito mais do que uma pista. Trata-se de um processo técnico rigoroso, que envolve várias etapas essenciais, começando pela pista de pouso e decolagem, áreas de taxiamento das aeronaves (taxiways), áreas de segurança nas pontas da pista (RESA – áreas de escape de segurança) e todo o sistema de drenagem e a Estação Prestadora de Serviços de Telecomunicações e de Tráfego Aéreo (EPTA).
Também são construídos o terminal de passageiros, o terminal de carga, o parque de abastecimento de aeronaves, além de estacionamentos e vias de acesso. Outro ponto importante é a instalação de equipamentos que ajudam na navegação e segurança dos voos, como:
- PAPI: luzes que orientam o piloto na aproximação correta para o pouso
- ILS: sistema que guia o avião com precisão para pousar, mesmo com pouca visibilidade
- DVOR: ajuda na navegação e localização da aeronave no espaço aéreo
- EMS: estação que mede as condições do tempo no aeroporto
Depois disso, o aeroporto precisa passar por certificações e autorizações para funcionar. Isso é feito pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), órgão que regula e certifica a aviação civil no Brasil.
Também participa do processo o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DCEA), responsável por organizar e controlar o tráfego aéreo, junto com os centros regionais que fazem esse controle na prática.
Entretanto, ao analisar o histórico do projeto, Wantuê Nascimento avalia que a parte mais difícil já foi superada: a regularização e a comprovação da titularidade da terra onde o aeroporto será construído.
“No Brasil, especialmente na região Amazônica, questões fundiárias são extremamente complexas; garantir que o terreno onde o aeroporto será construído pertença legalmente ao município, sem pendências ou disputas, é o alicerce jurídico necessário para qualquer investimento público desse porte. Sem a escritura definitiva e o registro em mãos, nem a ANAC nem o DECEA dariam seguimento aos processos de autorização”, analisou.
Um projeto de médio prazo, mas com impacto para décadas
Na avaliação técnica de Wantuê Nascimento, o aeroporto deve ser encarado como um projeto estruturante de médio prazo, com efeitos duradouros. Mais do que atender voos, ele pode redefinir o posicionamento econômico da região no cenário nacional. E, mesmo diante da expectativa crescente, ele faz um alerta importante: “não existem atalhos na aviação.”
Quando voar depende da perfeição
Se o cronograma avançar como previsto, Canaã dos Carajás poderá ver o primeiro avião decolar em até cinco anos, iniciando uma nova fase para a mobilidade aérea e o desenvolvimento regional.
Mas, como destaca o próprio especialista, construir um aeroporto exige paciência, rigor técnico e cumprimento absoluto das normas. E foi com uma referência marcante que o consultor resumiu o que significa construir um aeroporto no Brasil, uma frase que traduz perfeitamente o rigor exigido pela aviação:
“Como dizia Raul Seixas: tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado… se quiser voar”, concluiu Wantuê Nascimento.
Porque, na aviação, não basta construir — é preciso provar que cada detalhe está perfeito antes que o primeiro avião toque o solo.
Texto: Wagner Santos











Uma resposta
Essa história do aeroporto em Canaã eu já escuto há bastante tempo, desde o início da implantação do S11D. Este ano, por ser ano político, essas conversas sempre voltam com mais força.
Outro ponto importante: recentemente o aeroporto de Carajás foi concedido à iniciativa privada, e já estão realizando ampliações no terminal de embarque e desembarque, além da pista. Você acha que uma empresa privada investiria esse volume de recursos sabendo que poderia surgir outro aeroporto a apenas cerca de 60 km de distância?
Essa questão envolve muito lobby político em Brasília e diversos interesses. Infelizmente, o país ainda funciona assim em muitos aspectos. Agora, se fosse a iniciativa privada liderando diretamente esse novo aeroporto, eu não duvidaria da sua construção.
Mas, por enquanto, vamos aguardar os próximos capítulos dessa novela.