“Abril Verde” sem distanciamento entre discurso e prática na prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho

Três empresas de diferentes portes, que atuam no Polo Mineral de Carajás, no Pará, se destacam por adotar práticas consistentes e efetivas voltadas à segurança do trabalho.

Durante o mês de conscientização sobre saúde e segurança do trabalho, conhecido como “Abril Verde”, especialistas e observadores apontam que parte das empresas e instituições adota ações pontuais de visibilidade, mas mantém práticas insuficientes no dia a dia.

Ao longo de abril, é comum que organizações públicas e privadas promovam campanhas, iluminem fachadas e divulguem mensagens voltadas à prevenção de acidentes. No entanto, há críticas de que essas iniciativas nem sempre refletem mudanças estruturais nas rotinas de trabalho.

Segundo avaliações recorrentes, após o período de mobilização, muitas empresas retomam práticas consideradas inadequadas. Entre os problemas estão treinamentos realizados de forma superficial, fornecimento insuficiente de equipamentos de proteção e tratamento dos riscos ocupacionais como fatores de custo e não como responsabilidade prioritária.

A segurança do trabalho deve ser tratada de forma contínua e integrada à cultura organizacional e não como uma ação sazonal. A ausência de alinhamento entre discurso institucional e prática cotidiana compromete a efetividade das campanhas e pode reduzir a credibilidade de iniciativas. Além disso, a adoção de estratégias meramente simbólicas tende a banalizar o debate sobre prevenção de acidentes, tema considerado essencial e permanente no ambiente corporativo.

Diante desse cenário é valido o questionamento: as ações promovidas durante o “Abril Verde” refletem uma cultura organizacional consolidada ou se limitam a estratégias de comunicação institucional?

Na contramão dessa dicotomia e em um cenário ainda marcado pela ausência de responsabilidade genuína tratada como prioridade, três empresas de diferentes portes, que atuam no Polo Mineral de Carajás, na Região Sudeste do Pará, vêm se destacando por adotar práticas consistentes e efetivas voltadas à segurança do trabalho.

Mais do que discursos institucionais, as empresas têm demonstrado, na prática, um compromisso genuíno com a preservação da vida, investindo em cultura preventiva, capacitação contínua e rigor no cumprimento de normas, o que as posiciona como referências positivas em um contexto que ainda carece de maior comprometimento com o tema.

É o caso da microempresa VForte, com sede em Parauapebas, que iniciou suas atividades no mercado em meio a um período crítico: na pandemia do Corona Vírus, o que exigiu decisões firmes em um cenário de total incerteza à época.

“Estruturamos a cultura de segurança na VForte como um valor inegociável, adaptando rapidamente nossos processos com treinamentos contínuos e uma comunicação constante com a equipe, garantindo alinhamento, disciplina e responsabilidade nas operações. Além dos processos técnicos, fortalecemos uma cultura baseada no respeito e no cuidado com as pessoas”, afirma Viviane Oliveira, CEO da empresa.

Além dos processos técnicos, a VForte fortalece a cultura baseada no respeito e no cuidado com as pessoas. Os ritos de segurança reforçam o compromisso na empresa. Todas as segundas-feiras iniciam a semana pedindo proteção a Deus e às sextas-feiras realizam o “Café com Fé”, momento de conexão com a equipe para agradecimentos e realização de dinâmicas visando ao estímulo do time nos âmbitos profissional e espiritual.

“Acreditamos que segurança vai além de normas e procedimentos, ela também está no ambiente, nas relações e no propósito que sustenta cada colaborador no dia a dia”, conclui Viviane.

A empresa Nordeste, sediada em Parauapebas, é detentora de certificações ISO 14001 e ISO 45001 e tem provocado mudanças estruturais na organização, com reflexos diretos tanto na cultura organizacional quanto nos resultados operacionais ao longo do tempo.

Segundo a empresa, a adoção dos padrões internacionais fortaleceu a maturidade do sistema de gestão, impulsionando uma transição de práticas reativas para uma abordagem mais preventiva e orientada à gestão de riscos e à melhoria contínua.

No campo cultural, observa-se maior conscientização dos colaboradores em relação aos aspectos ambientais e à segurança do trabalho, além do fortalecimento da participação interna e da comunicação entre equipes. Os impactos são acompanhados por indicadores de desempenho que evidenciam avanços na eficiência dos processos, na redução de riscos e na consolidação de práticas sustentáveis.

A empresa tem registrado avanços expressivos após a certificação, com a redução das taxas de frequência e gravidade de acidentes, além da diminuição de impactos ambientais relevantes, como a geração de resíduos e emissões. Dentre vários pontos positivos estão as melhorias como a eficiência dos processos, menor incidência de desperdícios e retrabalho, maior conformidade com a legislação vigente, redução de riscos de penalidades e passivos ambientais e trabalhistas.

“A gestão passou ainda a ser mais orientada por dados, qualificando a tomada de decisão. Nos médio e longo prazos, os resultados tendem a ampliar a confiabilidade da empresa junto às partes interessadas, fortalecer sua posição competitiva e possibilitar o acesso a novos mercados, especialmente aqueles que exigem aderência a normas internacionais, além de contribuir para a sustentabilidade do negócio e o aumento da resiliência organizacional diante de riscos”, afirma Marcelo dos Santos, supervisor de Saúde, Segurança e Meio Ambiente (SSMA) da Nordeste.

Na Plamont, a segurança do trabalho é tratada como valor central e integrada às operações por meio de práticas estruturadas que orientam o comportamento dos empregados, inclusive em contextos de pressão por produtividade.

A empresa adota mecanismos formais de gestão e monitoramento que reforçam a segurança como pré-condição para a produção, além de estimular a autonomia dos trabalhadores com uso de ferramentas como o direito de recusa operacionalizado por aplicativo próprio. O App Plamont permite registro estruturado de ocorrências, garante rastreabilidade, tratativa e aprendizado organizacional, além de fortalecer a autonomia do time de empregados e reduzir a exposição a riscos críticos.

Rotinas padronizadas, como análises de risco e revisões de atividades críticas, são registradas digitalmente, permitindo maior controle e atuação preventiva. A organização também aplica conceitos de desempenho humano e organizacional, tratando falhas como oportunidades de melhoria e investe no reconhecimento de comportamentos seguros, fortalecendo uma cultura voltada à prevenção e à tomada de decisão baseada em dados.

A liderança tem papel central na consolidação da cultura de segurança da empresa. “Atuamos como principal agente de influência sobre o comportamento dos colaboradores. Esse compromisso se traduz em práticas estruturadas, presença ativa nas operações e decisões alinhadas aos princípios de segurança, reforçando a prioridade do tema no dia a dia da empresa”, afirma Marcelo Almeida, Diretor Executivo de Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Qualidade (SSMAQ) da Plamont.

Histórico

O “Abril Verde” é um movimento voltado à conscientização sobre a prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, com destaque para o dia 28 de abril. A data remete a um episódio marcante ocorrido em 1969, quando uma explosão em uma mina de carvão na Virgínia, nos Estados Unidos, resultou na morte de 78 trabalhadores. Em reconhecimento à gravidade desse evento e à necessidade de reforçar a cultura de segurança, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) instituiu, em 2003, o 28 de abril como o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho.

No Brasil, a relevância da data foi consolidada com a Lei nº 11.121/2005, que oficializou o 28 de abril como o Dia Nacional em Memória das Vítimas, fortalecendo o movimento Abril Verde no país.

A escolha da cor verde está associada ao simbolismo da segurança no ambiente laboral, enquanto o laço representa a solidariedade às vítimas e seus familiares.

De forma geral, o movimento tem como principal objetivo contribuir para a redução dos índices de acidentes de trabalho, por meio da promoção de ações educativas, incentivo à prevenção e reforço do cumprimento das normas de segurança.

Texto: Emanuel Jadir Siqueira

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