A trajetória de Adnan Demachki, ex-prefeito de Paragominas (PA), foi tema de uma detalhada e elogiosa reportagem na prestigiada revista piauí, assinada pelo jornalista João Moreira Salles. A matéria destaca como o gestor, falecido recentemente aos 62 anos, transformou um dos municípios que mais desmatavam na Amazônia em um modelo internacional de sustentabilidade e ordem urbana. Conhecido carinhosamente como “Turco”, Demachki é descrito como um articulador nato, capaz de mediar conflitos entre ambientalistas e produtores rurais.
Ao assumir a prefeitura em 2005, Demachki herdou uma cidade mergulhada em uma crise ambiental severa, onde a fuligem das serrarias era tão intensa que chegava a escurecer o sol e sujar carros com camadas de lama negra. O cenário agravou-se em 2008, quando o Ministério do Meio Ambiente incluiu Paragominas na “lista suja” dos maiores desmatadores da Amazônia, o que acarretou restrições severas de crédito e proibição de comercialização de produtos agrícolas.
Diante do colapso econômico iminente, Demachki rompeu com a postura negacionista comum à época. Em um jantar histórico com o advogado Justiniano Netto e o ecologista Beto Veríssimo, do Imazon, ele confrontou os dados de satélite que comprovavam a destruição florestal. Diferente de outros gestores, o prefeito admitiu a gravidade do problema e decidiu que o município não brigaria com os dados, mas trabalharia para mudá-los.
O papel de Adnan foi fundamental para redesenhar a economia local sob a ótica da preservação. Ele articulou o pacto “Município Verde”, reunindo mais de cinquenta entidades patronais e civis em um compromisso público contra o desmatamento ilegal. O plano focou em monitoramento constante e na transparência, expondo quem eram os infratores para gerar uma pressão social coletiva dentro da própria comunidade.
Uma descoberta crucial durante sua gestão foi a de que o desmatamento era impulsionado, em grande parte, por carvoarias clandestinas, e não apenas por grandes pecuaristas ou sojicultores. Agindo com rapidez, Demachki proibiu o licenciamento de novas unidades que utilizassem madeira de desmate, permitindo apenas o processamento de resíduos de serrarias. Essa medida direta ajudou a estancar a perda florestal em pontos críticos mapeados pelo Imazon.
O momento mais emblemático de sua liderança ocorreu após uma revolta de madeireiros que incendiaram a sede do Ibama em 2008. Em uma assembleia tensa com lideranças locais, Demachki colocou seu cargo à disposição, apresentando uma carta de renúncia e outra de compromisso ambiental. A sociedade local, confiando em sua gestão que detinha 74% de aprovação, rejeitou a renúncia e aderiu formalmente ao projeto de conformidade legal.
Graças a essas ações, Paragominas tornou-se o primeiro município a sair da lista de desmatadores do Ministério do Meio Ambiente, em 2010. Entre 2005 e 2012, o desmatamento anual caiu drasticamente de 300 km² para apenas 17,1 km². O modelo demonstrou que era possível manter uma economia pujante — baseada em pecuária e soja de alta produtividade — sem expandir a fronteira agrícola sobre a floresta nativa.
Além dos índices ambientais, Demachki implementou uma reforma cultural e educacional. Ele incluiu a educação ambiental como tema transversal em todas as disciplinas das escolas municipais e criou rituais simbólicos, como a entrega de mudas de árvores a pais de recém-nascidos. Esse esforço resultou em uma cidade mais ordenada, com ruas limpas e respeito às leis de trânsito, o que atraiu a atenção da revista britânica The Economist em 2013.
Após deixar a prefeitura, o ex-prefeito levou sua experiência para o Governo do Estado do Pará, onde atuou como secretário de Desenvolvimento Econômico e Mineração. Mesmo fora dos cargos públicos, tornou-se um consultor requisitado por prefeituras de todo o Brasil, sendo reconhecido por Beto Veríssimo como o “grande municipalista” que ensinou cidades a se governarem com responsabilidade socioambiental.
Adnan Demachki faleceu em março de 2026, em Brasília, após sofrer um problema cardíaco enquanto palestrava sobre economia sustentável na Amazônia. Seu velório em Paragominas reuniu grupos historicamente antagônicos, como sindicalistas e produtores rurais, todos unidos para homenagear o homem que, segundo seus aliados, foi o fiador de uma nova era para a região amazônica.










