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Ter terras raras no subsolo deixou de ser suficiente para garantir protagonismo na nova corrida global por minerais críticos.
Enquanto Estados Unidos, Europa e outras economias aceleram investimentos para reduzir a dependência chinesa, um gargalo começa a ganhar espaço no debate internacional: entre retirar uma terra rara do solo e transformá-la em um ímã de alta performance existe uma cadeia industrial sofisticada, cara e altamente concentrada.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A China respondeu por aproximadamente 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em ímãs em 2024, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Quando se avança na cadeia, porém, a concentração aumenta: o país controlou 91% do refino e nada menos que 94% da fabricação mundial de ímãs permanentes sinterizados.
Há duas décadas, a participação chinesa nessa última etapa era próxima de 50%. Isso significa que, enquanto novos projetos de mineração começam a surgir em diferentes regiões do planeta, a transformação da matéria-prima em um componente industrial continua extraordinariamente concentrada.
É nesse ponto que a nova disputa pelas terras raras começa a mudar de natureza.
Da mina ao ímã
O termo “terras raras” reúne 17 elementos químicos. Entre eles estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, fundamentais para a produção de ímãs permanentes de alta performance.
Os ímãs de neodímio-ferro-boro, conhecidos como NdFeB, estão entre os ímãs permanentes mais fortes disponíveis comercialmente. São utilizados em motores elétricos, sistemas de automação, robótica, equipamentos industriais, turbinas eólicas, eletrônicos, data centers e diferentes tecnologias que exigem alta potência magnética em espaços reduzidos.
Mas existe uma longa distância industrial entre uma reserva mineral e esse produto.
Depois da extração, o minério precisa passar por beneficiamento, concentração, separação química e refino. Os óxidos obtidos precisam então ser convertidos em metais, posteriormente em ligas e pós magnéticos e, somente depois, em ímãs.
É justamente nessas etapas intermediárias e finais que se encontra um dos principais obstáculos para países que pretendem reduzir sua dependência da China.
A própria programação da Argus Rare Earths & Critical Minerals Conference, prevista para março de 2027, em Washington, reflete essa mudança. Entre os temas centrais do encontro estão desenvolvimento “mine-to-market”, processamento, financiamento, precificação, reciclagem e expansão da fabricação de ímãs fora da China. A agenda deixa explícita uma questão que ganhou importância para governos e indústria: transformar projetos minerais em cadeias comercialmente viáveis.
A pirâmide fica menor a cada etapa
Um levantamento recente da IEA mostra a dimensão desse descompasso.
Os projetos existentes e anunciados fora da China podem elevar a capacidade de mineração de terras raras para ímãs a mais de 50 mil toneladas de conteúdo de elementos de terras raras até 2035.
Na etapa de separação e refino, entretanto, a capacidade projetada cai para menos de 40 mil toneladas.
Quando a análise chega à produção de metais, ligas e ímãs acabados, os projetos anunciados até o início de 2026 somavam aproximadamente 18 mil toneladas, apenas cerca de um terço da capacidade diversificada projetada na mineração.
Em outras palavras: o mundo está conseguindo avançar mais rapidamente na abertura de novas fontes minerais do que na construção da indústria necessária para transformá-las em ímãs.
Para Rodolfo Midea, diretor da Fácil Negócio Importação, uma das principais importadoras de ímãs de neodímio do Brasil, essa diferença é fundamental para compreender a atual disputa geopolítica.
“Quando falamos em terras raras, existe uma tendência de olhar imediatamente para o tamanho das reservas. Mas a reserva mineral é apenas o começo. Entre tirar o minério da terra e colocar um ímã dentro de um motor existe uma cadeia tecnológica e industrial enorme. É nessa cadeia que está boa parte do valor e também da dependência mundial.”
Exportações chinesas mostram o tamanho da dependência
As restrições adotadas pela China em 2025 transformaram um risco que parecia teórico em um problema concreto para a indústria.
Em abril daquele ano, Pequim estabeleceu controles de exportação sobre sete terras raras pesadas, compostos relacionados e determinados ímãs. Nos meses seguintes, os embarques recuaram fortemente, dificultando o abastecimento de fabricantes de automóveis nos Estados Unidos, Europa e outros mercados.
A dependência permanece evidente em 2026. Somente em julho deste ano, a China enviou 647 toneladas de ímãs permanentes de terras raras aos Estados Unidos, segundo dados alfandegários chineses reportados pela Reuters. Foi o segundo maior volume mensal desde a introdução dos controles de exportação.
As terras raras também continuaram no centro das negociações comerciais entre Washington e Pequim em 2026. Em julho, autoridades americanas voltaram a pressionar o governo chinês sobre compromissos relacionados ao fornecimento desses materiais.
“Quando um país concentra mais de 90% de uma etapa essencial da cadeia, qualquer mudança regulatória ou comercial deixa de ser um assunto distante e pode se transformar rapidamente em risco industrial”, afirma Midea.
O Brasil tem reserva. E depois?
Para o Brasil, a discussão ganha uma dimensão particular. Segundo o Mineral Commodity Summaries 2026, do US Geological Survey (USGS), o país possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras. A China aparece com 44 milhões de toneladas.
Apesar desse patrimônio mineral, a produção brasileira ainda é pequena. O mesmo levantamento estima que o país tenha produzido cerca de 2 mil toneladas em 2025, diante de aproximadamente 270 mil toneladas produzidas pela China.
E mesmo ampliar a mineração não resolveria sozinho a questão. O desafio brasileiro é decidir quanto da cadeia pretende desenvolver dentro do país.
“Podemos aumentar a extração e ainda continuar dependentes”, diz Midea. “Se exportarmos o recurso e depois precisarmos importar o metal, a liga ou o ímã pronto, capturamos apenas uma parcela do valor econômico dessa cadeia.”
Essa discussão já começou a entrar nas relações internacionais brasileiras. O governo brasileiro vem mantendo conversas com diferentes parceiros sobre minerais críticos e estratégicos, em um momento em que grandes economias procuram diversificar suas fontes de abastecimento.
Para Midea, o interesse internacional nas reservas brasileiras deve ser encarado como oportunidade, mas também como alerta.
“A pergunta para o Brasil não deveria ser apenas quem quer comprar nossas terras raras. Deveria ser: que indústria queremos construir a partir delas? Existe uma diferença enorme entre ser fornecedor de recurso mineral e participar de uma cadeia tecnológica.”
O elo que falta
A dificuldade, porém, não se resume ao investimento financeiro. O relatório mais recente da IEA sobre minerais críticos chama atenção para um obstáculo menos visível: know-how industrial.
Processamento, refino e fabricação de materiais avançados exigem equipamentos especializados, propriedade intelectual, mão de obra qualificada e conhecimento acumulado durante anos.
Na fabricação de ímãs de terras raras, por exemplo, a IEA cita a técnica de grain boundary diffusion, utilizada para melhorar o desempenho magnético. Fora da China, há apenas um fornecedor de determinados equipamentos necessários ao processo, e seu custo pode ser mais de dez vezes superior, além de envolver prazos maiores de entrega
Isso ajuda a explicar por que simplesmente financiar novas minas não recria uma cadeia industrial.
A China construiu durante décadas um ecossistema que conecta mineração, química, metalurgia, fabricação de ímãs, fornecedores de equipamentos, conhecimento tecnológico e compradores industriais em grande escala.
Reproduzir essa estrutura exige tempo.
Uma oportunidade de 21 milhões de toneladas
Para o Brasil, portanto, as reservas podem representar uma vantagem importante, mas não garantem protagonismo.
O país pode ocupar posições diferentes nessa reorganização mundial: fornecedor de minério, produtor de óxidos separados, fabricante de metais e ligas ou, em uma estratégia mais ambiciosa, participante da produção de componentes de maior valor agregado.
A diferença entre esses caminhos será medida não apenas em toneladas exportadas, mas em tecnologia, empregos qualificados, investimentos industriais e valor capturado dentro do país.
Para Midea, o momento exige uma discussão que vá além da mineração.
“Nós já sabemos que o Brasil tem o recurso. Agora precisamos discutir o que faremos com ele. Se o mundo está procurando alternativas à China, existe uma janela de oportunidade. Mas ela não será aproveitada apenas abrindo minas. Precisamos pensar em processamento, tecnologia, formação de profissionais, indústria e mercado consumidor.”
A corrida global pelas terras raras, portanto, pode estar entrando em sua segunda fase.
A primeira foi descobrir quem possui os recursos.
A próxima será determinar quem consegue transformá-los.
E, pelos números atuais, é nessa segunda disputa que a distância para a China continua muito maior.
DADOS-CHAVE | DA MINA AO ÍMÃ
Indicador Número Reservas brasileiras de terras raras 21 milhões de toneladas Reservas chinesas 44 milhões de toneladas Produção brasileira em 2025 2 mil toneladas Produção chinesa em 2025 270 mil toneladas Participação chinesa na mineração das terras raras para ímãs 60% Participação chinesa no refino 91% Participação chinesa nos ímãs permanentes sinterizados 94% Capacidade diversificada projetada de mineração até 2035 mais de 50 mil t Projetos de metais, ligas e ímãs fora da cadeia dominante cerca de 18 mil t
Fontes: USGS, IEA
Fonte: Ascom da Fácil Negócio Importação









