Especial CKS Online: Aos 77 anos, Odílio Rosa resgata memórias da fundação do Metabase e a luta por dignidade em Carajás

Aniversariante deste 30 de março construiu uma história de embate, mas de respeito, com direção da Vale, e ajudou a trazer conquistas que ainda hoje perduram

Há 77 anos, nascia, em Dom Cavati, Minas Gerais, próximo de Governador Valadares, um homem que mudaria a rota das relações de trabalho na maior província mineral do planeta. Neste fim de março, aniversário de Odílio Rosa da Hora, o CKS Online conversou, com exclusividade, com o primeiro presidente e fundador do Sindicato Metabase de Carajás, um dos maiores sindicatos de mineração do país, que compartilhou memórias desse capítulo fundamental da história mineral do Brasil, uma época em que a coragem era o principal instrumento de trabalho em meio à floresta amazônica.

Odílio relembrou que sua trajetória na então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) começou muito antes de Carajás, passando por Itabira, onde chegou em 1980, berço da gigante da mineração, onde o “analfabetismo político” deu lugar à consciência de classe. Lá, concluiu seus estudos, e influenciado por professoras de sociologia e psicologia durante seus estudos técnicos, ele compreendeu que a organização dos trabalhadores era a única via para a justiça. Esse despertar foi o alicerce para que, anos mais tarde, ele se tornasse a voz de milhares de mineradores na província mineral do Pará.

“Elas me ensinaram a viver em sociedade, a ver o mundo, com diversas experiências. A partir daí, comecei a participar de movimentos sindicais e conseguimos recuperar sindicatos que tinham sido entregues pra representantes da ditadura”.

A riqueza mineral que transformou a Vale em uma das maiores mineradoras do mundo, moldou o desenvolvimento do Pará, e ajudou a construir metrópoles chinesas do outro lado do mundo, também veio pelo suor de trabalhadores como Odílio.

Odílio é carregado nos braços por colegas do sindicato (Foto: Arquivo Leonardo Santos)

Em 1981 chegou à região de Carajás, já com 11 anos de experiência na área. Ele descreve, nessa época, uma relação complexa com figuras históricas da empresa, marcada por momentos de tensão e respeito mútuo.

Em um dos episódios mais emblemáticos, ele narra como enfrentou a diretoria para garantir seu direito de retorno para casa, em Belo Horizonte, onde havia deixado o filho doente, evidenciando sua postura firme diante das hierarquias da época. Bateu de frente com um dos diretores. “No dia seguinte, minha passagem tava marcada e eu viajei”, relatou. Achou que depois dessa não voltaria, mas devido à sua experiência, e a necessidade da empresa, voltou, ainda no processo de implantação. “E nunca mais tivemos problema. Em uma semana, concluí o serviço”, lembrou.

Em Brasília, onde Odílio buscou a carta sindical do Metabase Carajás

Retornou a Carajás em 1983, onde construiu, a partir de então, sua carreira, até 1996. Um dos pontos altos da atuação de Odílio foi o combate às práticas humilhantes impostas aos operários na época. Ele recorda com detalhes a luta contra as revistas na “corrente”, onde hoje é a portaria, que geravam profundo constrangimento aos trabalhadores que entravam e saíam da mina. Sua liderança foi determinante para extinguir essa prática, estabelecendo um novo padrão de respeito e dignidade que ecoa até os dias de hoje nas relações de trabalho em Carajás.

No Sindicato, avisou aos patrões que, do outro lado do balcão, não deixaria de lutar pelos trabalhadores. “Eu disse, enquanto eu estiver no Sindicato, os meus patrões são os que me elegeram, e vou fazer o que for preciso por eles”. Com a atuação no Sindicato, foi convidado para entrar na política partidária. Chegou a ser candidato – com mais de 700 votos (um dos mais votados à época) – à Câmara de Parauapebas, mas não foi eleito pois sua legenda não alcançou o quociente eleitoral.

Primeira Assembleia do Metabase Carajás (Foto: Arquivo Leonardo Santos)

A fundação do Sindicato Metabase, sob a batuta de Odílio e seus companheiros, não foi apenas um ato administrativo, mas um movimento de resistência em uma região inóspita e de pouca industrialização no início dos anos 80. O pioneirismo do grupo garantiu que o crescimento da produção mineral fosse acompanhado pela conquista de direitos básicos.

Ao centro, Odílio e a família que construiu com o trabalho na mineração

Ao completar 77 anos, o líder sindical reflete sobre o legado deixado para as novas gerações. Ele ressalta que as conquistas obtidas há décadas, como “a melhoria nas condições de alojamento e a representatividade política, são a base para os benefícios que os trabalhadores atuais desfrutam”. Para Odílio, entender o passado de lutas é essencial para que os trabalhadores de hoje não retrocedam em suas garantias e mantenham o espírito de vigilância.

A entrevista exclusiva revela ainda o lado humano do desbravador. Odílio narra o sacrifício pessoal vivido por ele, de deixar a família com um filho doente para cumprir sua missão técnica em Carajás, pela primeira vez, em abril 1981.

Tal sacrifício é ainda hoje repetido pelos milhares que apostam no potencial da região em busca de uma vida melhor. Essa dedicação integral à profissão e, posteriormente, à causa sindical, moldou o caráter de uma das instituições mais relevantes do setor mineral brasileiro. Sua história se confunde com a própria história de cidades como Parauapebas e Canaã dos Carajás.

Para Odílio, a experiência adquirida nos canteiros de obras e nas usinas foi o que “preparou para as mesas de negociação”. Um dos momentos mais emblemáticos, e até hoje lembrados, foi uma paralisação dos profissionais que chegou a quase uma semana, e paralisou a mina de ferro, algo inédito até os dias de hoje. A firmeza em suas convicções fez dele uma figura respeitada tanto por aliados quanto por opositores dentro da estrutura da mineradora.

Olhando para o passado, ele considera que hoje, o movimento sindical “foi engolido pelo capitalismo” e sente saudade da Companhia Vale do Rio Doce, antes da privatização. “A Vale do Rio Doce, com quem trabalhei, com quem convivi, eu tenho no lado esquerdo do meu coração”, diz. Sobre o estado do Pará, ele se diz “paraneiro”, metade paraense, metade mineiro.

Atualmente residindo em Betim, Odílio Rosa da Hora, o paraneiro, mantém viva a chama do ativismo que o consagrou. Ele acredita que o papel do Metabase continua sendo vital para o equilíbrio de forças na província de Carajás. Mesmo distante geograficamente das minas, suas lições de liderança e coragem permanecem como bússola para os representantes que hoje ocupam os cargos que ele ajudou a criar no seio do movimento operário.

Odílio Rosa da Hora atualmente vive em Betim, Minas Gerais

Nesta data especial, celebrar os 77 anos de Odílio é, acima de tudo, honrar a memória de quem não teve medo de enfrentar gigantes para garantir o pão e a dignidade do trabalhador. O CKS Online entrega este registro histórico como um tributo a um homem que, entre máquinas e minérios, nunca se esqueceu de que o recurso mais valioso de Carajás sempre foram as pessoas.

Por Wagner Santos e Wellington Borges – Redação CKS Online.

Respostas de 7

  1. Que homenagem honrosa, como filha fico emocionada e orgulhosa desse pai guerreiro e vencedor de tantas lutas trabalhistas! Agradeço ao jornal pelas brilhantes e justas palavras a ele dedicadas!

  2. Parabéns cunhado pelo seu aniversário e tbm pela história de luta que eu ainda não conhecia! Muito orgulhosa de você e sua história no sindicato!!! Deus continue te abençoando!!!

  3. Uma homenagem mais do que merecida, a esse homem, que desde muito jovem, escolheu lutar pelos menos favorecidos.
    Orgulho é o que sinto, por ter o prazer de conhecê-lo e poder conviver com ele.
    Parabéns e que Deus continue te abençoando!

  4. Nada foi fácil, mas ele nunca desistiu. Sempre foi exemplo de força, de caráter e de determinação.
    Pai, sua história me ensina todos os dias. Tenho muito orgulho da sua jornada e sou grato por carregar um pouco de você em mim.

  5. Parabéns Wagner pelo resgate da história dos Pioneiros da nossa mineração em Carajás

  6. Nossa, fico muito feliz de ver a história de luta do meu pai ser reconhecida. Um homem que sempre acreditou que valia a pena lutar por uma vida melhor, não só pra si, mas para a coletividade. Exemplo de homem de caráter e de uma garra imensa, acalenta minha alma ver essa homenagem.

  7. Eu já estava na Vale quando o Odilio era presidente do Sindicato Metabase, naquela época o sindicato nos representava muito bem. Não fui a favor da paralisação que teve em 1990, prefiro o dialogo. Respeito muito o Odilio, e não posso deixar de lembrar do Rinio. Parabéns por seu aniversário Odilio

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