Crise de governança na Vale continua: Conselho de Administração quer destituir vice-presidente por vazamento de informações

Por se tratar de um membro eleito do Conselho, a destituição definitiva de Marcelo Gasparino da Silva não pode ser tomada de forma unilateral pelo colegiado e depende de aprovação formal dos acionistas reunidos em uma nova assembleia, que será convocada em breve pela companhia.

Marcelo Gasparino, vice-presidente do Conselho de Administração da Vale – Foto: Gabriel de Paiva/O Globo

A temperatura política no topo da governança corporativa da Vale voltou a subir fortemente. Na noite desta quarta-feira (22), a mineradora comunicou ao mercado a deliberação de seu Conselho de Administração (CA) para aplicar a sanção de destituição do cargo ao conselheiro Marcelo Gasparino da Silva, vice-presidente do órgão deliberativo há seis anos.

A medida é motivada pelo vazamento de informações confidenciais relativas à conturbada reunião do colegiado realizada no dia 19 de junho. Por se tratar de um membro eleito do Conselho, a destituição definitiva do cargo não pode ser tomada de forma unilateral pelo colegiado e depende de aprovação formal dos acionistas reunidos em uma nova Assembleia Geral Extraordinária (AGE), que será convocada em breve pela companhia.

Enquanto os trâmites para a convocação da AGE são finalizados, o Conselho aprovou o afastamento imediato de Gasparino de suas funções em dois importantes Comitês de Assessoramento da diretoria: o Comitê de Indicação e Governança e o Comitê de Pessoas e Remuneração.

Por que a Vale quer expulsar o conselheiro?

De acordo com o Fato Relevante assinado pelo Vice-Presidente Executivo de Finanças e Relações com Investidores, Marcelo Feriozzi Bacci, a decisão de punir Gasparino foi embasada nas conclusões de uma investigação conduzida por um escritório externo independente.

A apuração foi contratada por deliberação do próprio CA para averiguar o vazamento de conteúdos sigilosos da reunião de 19 de junho. O relatório final confirmou a autoria do vazamento, classificando o ato como um desvio grave de conduta, nos termos da Política de Gestão de Desvios de Conduta da Vale. A sanção seguiu pareceres e recomendações diretas do Comitê de Auditoria e Riscos (CARE) e da Diretoria de Auditoria e Conformidade da empresa.

Entenda o caso: bastidores e disputas de poder

O episódio que culminou na apuração contra Gasparino está diretamente conectado às disputas políticas que sacudiram a alta administração da mineradora nas últimas semanas.

Na reunião do dia 19 de junho, o Conselho discutia a convocação da AGE que acabou por eleger, nesta quarta-feira (22), Manuel “Ollie” Oliveira para a presidência do colegiado — nome chancelado pela Previ (fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil e principal acionista individual da Vale, com cerca de 10% de participação direta e indireta). Naquela ocasião, Gasparino atuou como um dos principais opositores ao movimento do fundo de pensão, defendendo abertamente a permanência do então presidente Daniel Stieler e registrando um voto em separado na ata da reunião.

A crise se aprofundou quando trechos de uma versão ampliada desse voto vieram a público. Na ocasião, foi divulgado pela imprensa que Stieler teria alertado os demais conselheiros sobre “fatos graves de que tomou conhecimento nos últimos anos”. O vazamento do teor dessas discussões internas — além de relatórios sobre avaliações de negócios em andamento no mercado — gerou forte indisposição entre os conselheiros e acionistas institucionais.

Coincidentemente, o anúncio da proposta de destituição ocorreu no mesmo dia em que Gasparino disputou e perdeu a eleição para a presidência do Conselho de Administração para Ollie. Gasparino foi derrotado ao somar votos equivalentes a cerca de um quarto do capital votante da mineradora.

O outro lado

Procurado pela imprensa para se manifestar sobre a decisão do Conselho de Administração e as acusações de vazamento de dados estratégicos, Marcelo Gasparino informou que não irá comentar o caso.

A data da Assembleia Geral Extraordinária em que os investidores e acionistas da Vale votarão o pedido de destituição do vice-presidente ainda não foi definida, mas o Fato Relevante assegura que o mercado será informado assim que os procedimentos legais forem concluídos.

Redação CKS Online

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