Governador Helder Barbalho condiciona licenciamento da Belo Sun a rigor técnico e compensações; indígenas prometem ida a Brasília

Além de comprovar que tem capacidade técnica para minerar de forma sustentável, Belo Sun terá que dar as compensações necessárias para Senador José Porfírio e Altamira; para o meio-ambiente e os povos indígenas, segundo o governador.

Helder Barbalho em discurso durante inauguração da Usina da Paz Altamira / Foto: Prefeitura de Altamira

O cenário político e social da região do Xingu ganhou novos capítulos no último sábado (28). Durante a inauguração da Usina da Paz em Altamira, o governador do Pará, Helder Barbalho, comentou sobre a implantação do projeto de mineração de ouro “Volta Grande”, da empresa canadense Belo Sun, localizado no município de Senador José Porfírio.

Enquanto o governador discursava para uma plateia de mais de 3 mil pessoas — muitas das quais portavam faixas de apoio ao empreendimento —, lideranças do Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu mantinham a resistência, anunciando que levarão suas reivindicações à capital federal.

O posicionamento do Governo: “Desenvolvimento sem Ideologias”

Em sua fala, Helder Barbalho adotou um tom que equilibra a busca por investimentos com a necessidade de atualização dos estudos ambientais. O governador ressaltou que, embora a Justiça tenha confirmado a competência do Estado para o licenciamento, o projeto de dez anos atrás não pode ser aprovado sem revisões.

“A própria Belo Sun, para poder se adaptar às realidades ambientais e à tecnologia de exploração, precisou mudar o tipo de mineração que eles vão produzir”, afirmou o governador.

Assim que o projeto for atualizado, de acordo com o governador, o Estado vai realizar a análise da licença ambiental, que deve ser técnica e também levar em consideração a oportunidade de desenvolvimento econômico. Helder condicionou a medida a comprovação da capacidade técnica da empresa em operar de forma sustentável, exigindo compensações.

“Se depender exclusimente do Governo do Estado, nós não vamos admitir que ideologias ou interesses de quem quer que seja se sobreponham aos interesses do Estado do Pará. Agora, a Belo Sun vai ter que comprovar que tem capacidade técnica para minerar de forma sustentável e vai ter que dar as compensações necessárias para a cidade de Senador José Porfírio, para Altamira, para o meio-ambiente e para os povos indígenas que ali moram e desejam ter preservados os seus interesses e as suas memórias”, enfatizou.

A visão da Belo Sun

A Belo Sun Mineração reforça o otimismo do governo quanto ao impacto econômico. De acordo com a mineradora, o Projeto Volta Grande prevê investimentos estimados de até R$ 4 bilhões, com a criação de mais de 2 mil empregos diretos na fase de implantação, prevista para dois anos e meio a três anos, mantendo grande parte desses postos na etapa operacional, licenciada para durar cerca de 12 anos e com potencial de expansão.

A empresa informa que já recebeu mais de 6 mil currículos e registra interesse de mais de 230 empresas da região em prestar serviços ao empreendimento. Em termos fiscais, afirma que serão gerados mais de R$ 30 milhões em CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral) para Souzel, e cerca R$ 40 milhões em arrecadação da Taxa de Fiscalização de Recursos Minerais (TFRM) e da CFEM.

Para o presidente da companhia, Adriano Espeschit, “o projeto não é apenas sobre mineração. É sobre pessoas, oportunidades e futuro. É sobre trabalhadores que encontram dignidade no emprego, jovens que descobrem novas carreiras, fornecedores que crescem junto com o território e comunidades que se fortalecem.”

A resistência indígena: “Luta pela vida do Rio Xingu”

No campo oposto, indígenas das etnias Juruna, Xikrin, Xipaya, Kuruaya e Arara tem realizado protestos e manifestações contra a instalação do Projeto Volta Grande. Liderados pelo Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu, já ocuparam a sede regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e chegaram a bloquear o acesso ao Aeroporto de Altamira.

As lideranças indígenas temem que o projeto cause danos ambientais em uma região já impactada pela Usina de Belo Monte. Os principais riscos apontados por eles são:

  • Contaminação química: Uma barragem de rejeitos de 35 milhões de m³ com potencial presença de cianeto e arsênio.
  • Segurança alimentar: Relatos de diminuição de peixes e alteração do fluxo do rio.

O grupo exige que o licenciamento saia da esfera estadual (Semas) e passe para o Ibama.

Reunião reservada

Após o evento oficial, o governador reuniu-se com as Mulheres Indígenas. O conteúdo da conversa não foi divulgado e a reunião não teve registros oficiais por parte do governo.

Insatisfeitas com a falta de definições concretas para o cancelamento do projeto, as lideranças indígenas informaram através de suas redes sociais que viajarão a Brasília. O objetivo é buscar audiências com o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério do Meio Ambiente para tentar federalizar o processo e garantir que suas vozes sejam ouvidas nas instâncias superiores.

Redação CKS Online

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