A Grande Travessia: Minha Análise sobre o Êxodo Industrial Brasileiro rumo ao Paraguai

Para compreender as razões dessa migração em massa, precisamos analisar as forças que "expulsam" as empresas do Brasil e os atrativos que as "puxam" em direção ao Paraguai.

Thiago Norberto – Advogado tributarista, sócio fundador da SSP – Soluções Tributária e Sócio-Membro do Tax Group.

Por muito tempo, o imaginário empresarial brasileiro manteve uma visão desatualizada do Paraguai, associando o país vizinho apenas ao comércio informal de fronteira. Hoje, no entanto, assistimos a um fenômeno completamente diferente: um silencioso, mas robusto, êxodo industrial que está redesenhando o mapa produtivo da América do Sul. Como analista do ambiente de negócios, vejo esse movimento não como um oportunismo passageiro, mas como uma decisão racional de sobrevivência corporativa diante das hostilidades do mercado interno brasileiro.

Os números são incontestáveis. Desde 2007, mais de 232 empresas brasileiras migraram suas operações para o solo paraguaio. Entre 2023 e 2026, outras 40 companhias fizeram a travessia, incluindo gigantes do varejo e da indústria como Lupo, Riachuelo, C&A, Lunelli, Dass, Estrela, Karsten e JBS. O setor têxtil lidera esse movimento com 89 operações, seguido pelo de plásticos (47) e alumínio (30). Em 2025, as exportações dessas indústrias sob o regime especial paraguaio atingiram o recorde histórico de US$ 1,3 bilhão.

Para compreender as razões dessa migração em massa, precisamos analisar as forças que “expulsam” as empresas do Brasil e os atrativos que as “puxam” em direção ao Paraguai.

1. O “Custo Brasil” e as Raízes de uma Crise Crônica

O Brasil construiu, ao longo de décadas, um dos sistemas tributários mais complexos e onerosos do mundo. Herdado do modelo desenvolvimentista de substituição de importações (entre as décadas de 1950 e 1980), o país consolidou uma estrutura fiscal fragmentada, cumulativa e extremamente burocrática.

Impostos como o ICMS, IPI, PIS, Cofins e ISS sobrepõem-se de maneira caótica. Dependendo do setor, as indústrias brasileiras chegam a pagar entre 40% e 65% de seu faturamento apenas em tributos diretos e indiretos.

Para piorar, as mudanças recentes no cenário nacional aceleraram a saída das empresas:

  • Tributação de Dividendos (2025): A Lei 15.270 restabeleceu a taxação sobre lucros distribuídos (retenção de 10% para valores que excedem R$ 50 mil mensais por empresa), além de instituir um imposto mínimo sobre rendas anuais elevadas.
  • Incerteza na Reforma Tributária: Embora a reforma do consumo tenha sido aprovada em 2023, sua regulamentação em 2026 ainda patina em indefinições de alíquotas e mecanismos de creditamento, gerando insegurança jurídica.

O resultado é um ciclo perverso: a saída das indústrias reduz a arrecadação no Brasil, o que pressiona o governo a aumentar impostos sobre as empresas que ficam, estimulando novas migrações. Esse cenário explica a queda de 0,8% na produção industrial brasileira registrada em 2024.

2. A Resposta Paraguaia: O Modelo do “Triplo 10” e a Lei de Maquila

Enquanto o Brasil elevava seus custos, o Paraguai estruturava uma política econômica agressiva e deliberada para atrair investimentos estrangeiros. O pilar desse modelo é o sistema simplificado do “Triplo 10”: 10% de imposto de renda empresarial (IRE), 10% de IVA e 10% de imposto de renda sobre pessoa física.

Para as indústrias que produzem para exportação, o cenário é ainda mais vantajoso sob a Lei de Maquila (1997):

  • Tributo Único: Apenas 1% de imposto sobre o valor agregado gerado localmente.
  • Isenções: Imposto zero sobre a importação de máquinas e matérias-primas, além de isenção de imposto de renda sobre dividendos.
  • Expansão para Serviços (2025): Sob o governo de Santiago Peña, o regime foi ampliado de 10 para 20 anos e passou a incluir o setor de serviços (softwares, call centers, BPO e tecnologia), gerando de imediato mais de 4.000 empregos formais.

A Vantagem Competitiva da Energia e do Trabalho

Além das vantagens fiscais, dois fatores operacionais são determinantes na decisão de migrar:

  • Energia Elétrica Abundante e Barata: O Paraguai oferece energia de 40% a 65% mais barata do que a brasileira para o setor industrial, impulsionada pela co-propriedade da usina de Itaipu. É o caso de empresas eletrointensivas como a Oxygroup, que planejou transferir sua fábrica de Minas Gerais para o Paraguai com um investimento de R$ 30 milhões.
  • Legislação Trabalhista Flexível: Enquanto no Brasil os encargos trabalhistas da CLT elevam o custo de um funcionário em até 40% além do salário nominal, no Paraguai as regras são mais simples. No setor de confecções, a carga tributária e trabalhista representa de 80% a 90% do custo de uma peça no Brasil, contra apenas 12% no Paraguai.

3. O Futuro da Fronteira Produtiva: Três Cenários Possíveis

Olhando para frente, a dinâmica de integração produtiva entre os dois países tende a seguir por três caminhos distintos:

  • Cenário 1: Aceleração do Êxodo (Mais Provável no Curto Prazo): Sem reformas brasileiras profundas, a migração continuará crescendo, impulsionada pela nova abertura do regime de Maquila para o setor de serviços e pela futura ratificação do acordo comercial Mercosul-União Europeia em 2026.
  • Cenário 2: Adaptação e Reforma no Brasil (Médio Prazo): A perda real de indústrias pode servir de pressão política para que o Brasil finalmente simplifique seu ambiente de negócios, reduzindo encargos e oferecendo maior previsibilidade regulatória.
  • Cenário 3: Consolidação Binacional (Tendência Estrutural de Longo Prazo): As empresas brasileiras tendem a consolidar um modelo híbrido, mantendo no Brasil as áreas de inteligência, inovação, gestão e distribuição, enquanto transferem a manufatura pesada para o Paraguai, aproveitando o corredor logístico da BR-277 até o Porto de Paranaguá.

Conclusão

A migração das indústrias brasileiras para o Paraguai não deve ser vista como falta de patriotismo, mas sim como uma reação pragmática a um sistema que pune a produção e o investimento. O Paraguai não é o vilão da desindustrialização brasileira; ele funciona como um espelho que reflete as nossas próprias ineficiências.

Para o Brasil, o alarme já tocou. Resta saber se o país continuará assistindo à fuga de seus empregos e tecnologias ou se enfrentará, com coragem, as reformas estruturais necessárias para voltar a ser competitivo.

Por Thiago Norberto – Advogado tributarista, sócio fundador da SSP – Soluções Tributária e Sócio-Membro do Tax Group.

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