Os acenos da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, sobre uma possível atuação da petroleira estatal no setor de minerais críticos agradam parte do governo, mas dividem especialistas e executivos consultados. Conforme apurado pelo site Agência iNFRA, o envolvimento da Petrobras surge como uma alternativa do governo federal diante da forte resistência política à criação da “Terrabrás”, uma nova estatal cogitada por alas do PT para controlar a exploração dessas reservas. Para o governo, a Petrobras funcionaria como um “atalho” estratégico para marcar presença em um setor central da geopolítica global, evitando o desgaste de criar uma nova empresa pública.
A notícia destaca que a Petrobras, por ser uma companhia de capital misto controlada pela União e possuir alta capacidade de investimento e tecnologia, poderia se adaptar ao novo marco regulatório do setor. Contudo, analistas apontam obstáculos imediatos, como a complexidade técnica de um mercado dominado pela China, a lacuna de competências da petroleira — historicamente voltada a petróleo e derivados — e dúvidas sobre a necessidade de mudanças legais ou estatutárias para respaldar a nova governança interna da companhia.
O texto traz visões favoráveis de ex-dirigentes da estatal. Maurício Tolmasquim, ex-diretor de Transição Energética, e Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, defendem que a transição energética tornou-se inseparável da agenda mineral. Prates cita o exemplo de grandes petroleiras internacionais, como a Saudi Aramco e a norueguesa Equinor, que já expandem presença nesse segmento. No caso brasileiro, ele propõe que a Petrobras priorize insumos para fertilizantes (potássio e fosfato), exploração mineral no fundo do mar (offshore), terras raras, reciclagem de baterias e urânio.
Por outro lado, a reportagem adverte sobre o risco de o governo utilizar o poder econômico da estatal para intervir no mercado, afastando competidores e investidores privados internacionais. A economista Elena Landau, ex-diretora do BNDES, argumenta que a Petrobras já sofreu alargamentos problemáticos em sua atuação no passado e defende que, caso a empresa decida ingressar na mineração, isso ocorra rigorosamente pelas vias do mercado competitivo, sem mecanismos de preferência ou monopólio de reservas.
A matéria pondera, contudo, que as características físicas e econômicas dos minerais críticos frequentemente exigem a participação do Estado para mitigar riscos, dada a opacidade do mercado e a presença de vulnerabilidades de preços. Lucas Barros, pesquisador da Coppe/UFRJ, explica que mesmo em mercados ocidentais privados, como nos Estados Unidos, os governos lançam mão de mecanismos protetivos, como preços mínimos e fundos garantidores, para contrabalançar os agressivos monopólios chineses.
De forma unânime entre os defensores da proposta, a matéria jornalística esclarece que a Petrobras não deve tentar emular uma mineradora tradicional ou focar na extração primária de baixo valor agregado. Especialistas e o diretor-executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC), Frederico Bedran, concordam que o verdadeiro valor econômico futuro está nas etapas posteriores, como o refino químico, metalurgia avançada e o processamento de materiais, onde a estatal poderia inclusive assinar contratos de compra antecipada (off-take) para destravar financiamentos no setor.
O uso de companhias estatais para resolver falhas de mercado e coordenar o processamento mineral é uma estratégia comum em países vizinhos. Conforme publicado pelo site Agência iNFRA, o governo do Chile utilizou a estatal Codelco para atuar em parceria com mineradoras privadas na produção de lítio, enquanto o governo argentino também emprega empresas públicas para avançar nas fases de industrialização dos minérios e assegurar contrapartidas socioambientais.
Por fim, o texto relembra que o aceno mais recente para essa estratégia ocorreu após a assinatura de um acordo de pesquisas entre a Petrobras e o BNDES. Diante do domínio da China, que controla mais de 80% das atividades globais de refino e processamento de minerais críticos, especialistas alertam que o Brasil necessita de uma estratégia perene. Caso o governo opte pela Petrobras, dificilmente o país escapará da órbita do mercado chinês nos primeiros anos, tornando indispensáveis os acordos de transferência de tecnologia com empresas estrangeiras já consolidadas no ramo.











